Déficit de leitos privados e de convênios cresce 358% em BH

Fechamento de hospitais e aumento de usuários de plano de saúde reforçam deficiência na capital

iG Minas Gerais | Luciene Câmara |

Consequências. População sofre com o déficit, enfrentando longas esperas ou ficando sem atendimento
Moisés Silva
Consequências. População sofre com o déficit, enfrentando longas esperas ou ficando sem atendimento

Quem procura um atendimento médico particular ou pelo plano de saúde espera encontrar, no mínimo, um serviço melhor que o do Sistema Único de Saúde (SUS). Não é à toa que, nos últimos dez anos, o número de adesões a convênios médicos subiu 41,4% em Belo Horizonte – de 944 mil para 1,3 milhão, o que representa 56% da população. O problema é que não só os hospitais ficaram pequenos diante da demanda, como muitos fecharam as portas. Para piorar a defasagem, unidades que tentam expandir sua estrutura esbarram na burocracia da administração municipal.

Prova disso é que hoje o déficit de leitos na rede privada e suplementar (planos de saúde) é de 2.545 leitos, 358% a mais que no balanço de 2013 da Secretaria Municipal de Saúde, quando faltavam 555 vagas. O aumento, segundo o órgão, tem como principais fatores o fechamento de leitos privados no Cadastro Nacional de Estabelecimento de Saúde (CNES) – o número foi de 5.496 em 2013 para 5.318 neste ano – e o aumento de usuários de planos de saúde na capital e no macrocentro (103 municípios mineiros que mais enviam pacientes para Belo Horizonte).

Até o ano passado, a secretaria usava apenas estimativas sobre o número de usuários de convênios médicos e, atualmente, os dados exatos são passados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o que mostra que antes o índice não retratava a real necessidade do sistema. Em relação ao fechamento de leitos, ao menos 13 hospitais encerraram suas atividades em Belo Horizonte nos últimos dez anos.

“Minas como um todo perdeu cerca de 6.000 leitos nos últimos anos. Por um lado, uma série foi fechada porque era de hospitais pequenos que não se sustentavam. Por outro, não foi feito nada de substancial para reverter esse quadro”, afirmou o diretor do departamento jurídico do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed), Artur Oliveira Mendes.

Quadro. Conforme a secretaria municipal, o número de usuários da rede particular e suplementar da capital é de 2.621.118 (incluindo a demanda da região metropolitana e do macrocentro). Para atender todo esse público, há 5.318 leitos, sendo que o necessário, segundo a secretaria, são 7.863. O déficit de 2.545 leitos chega a ser maior que no SUS, em que a falta é de 2.071, ainda segundo a pasta.

“Estão aumentando a longevidade da população e o número de pessoas com convênio médico, e não há incentivo algum para a ampliação de leitos”, disse a consultora da Associação dos Hospitais de Minas Gerais (AHMG) Renata Miari.

Quem depende de atendimento sente essa deficiência na pele, e não é de hoje. Há dois anos, a publicitária Fátima Souza, 30, fez exames que constataram a presença de um tumor no mediastino (perto do pulmão). Os médicos indicaram a internação imediata para uma biópsia.

“Fiquei três dias na enfermaria do Hospital Vera Cruz aguardando leito, sem tomar banho, sem dormir direito, com os gritos de dor dos outros pacientes. O lugar era apertado e não tinha espaço para acompanhante”, contou. Após a espera, o exame constatou um câncer no sistema linfático.

 

Angústia

“A espera em uma situação como essa (suspeita de câncer) é de cortar o coração, de tirar o sono e o fôlego. Você fica ali jogado, esperando uma vaga, esperando por uma biópsia que pode salvar sua vida. Enquanto não tinha a biópsia, não podia iniciar o tratamento”.

Fátima Souza, 30, Publicitária

Contraponto

“Temos que esperam mais de quatro horas no pronto-atendimento. Para ter um leito de UTI, é como escolher quem vai viver e quem vai morrer, e isso está acontecendo nas redes pública e privada.”

Renata Miari, Consultora da AHMG

 

“Há hoje uma forte expansão de hospitais. A taxa de ocupação do SUS é de cerca de 50% no Estado. Temos uma forte oferta para atender a demanda. Na saúde suplementar, não temos estimativa de taxa de ocupação.”

Tiago Lucas da Silva, Subsecretário de ações de saúde

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