A anatomia de uma sociedade

Seriado dirigido por Steven Soderbergh usa medicina para dissecar Nova York

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Microcosmo. Conflitos e incoerências sociais da época ganham pungência dramática na sala de cirurgia
Cinemax
Microcosmo. Conflitos e incoerências sociais da época ganham pungência dramática na sala de cirurgia

Na semana passada, a tradicional publicação “The Hollywood Reporter” tweetou que, apesar de não ocupar a cadeira de diretor, Steven Soderbergh assumiria a fotografia e a montagem de “Magic Mike XXL”, continuação do sucesso descamisado de 2012. Poucos segundos depois, o comediante e cineasta Judd Apatow respondeu ao post afirmando que “a aposentadoria de Soderbergh é exaustiva!”.

A piada é válida, mas é a mais pura verdade. Enquanto seu avô foi cuidar da horta ou fazer um cruzeiro no primeiro ano como aposentado, o diretor norte-americano já dirigiu, fotografou e editou todos os dez episódios da primeira temporada do seriado “The Knick”, atualmente exibido no Brasil pelo canal Max, sextas às 21h.

O título vem de Knickerboxer, renomado hospital da “parte baixa” de Nova York no início do século XX. Criada por Jack Amiel e Michael Begler (“Soltando os Cachorros”), a série acompanha o Dr. John Thackery (Clive Owen) e seus primeiros (e, na maior parte das vezes, catastróficos) experimentos com procedimentos cirúrgicos nos pobres diabos que procuram seus cuidados na instituição.

A trama tem início com a morte do mentor de Thackery, que assume então a chefia de cirurgia do hospital. O protagonista pretende indicar um dos residentes para seu antigo posto, mas a diretora Cornelia Robertson (Juliet Rylance) anuncia que seu pai, dono do lugar, determina a contratação do Dr. Algernon Edwards (André Holland).

O (grande) porém é que Edwards é negro. E Thackery não se considera racista, mas não deseja um médico negro trabalhando com ele porque isso espantaria seus pacientes e, consequentemente, suas chances de praticar seus experimentos frankstênicos. Ou seja, ele é racista (e também viciado em cocaína porque essa é uma série da TV a cabo e o protagonista não liga se você gosta dele).

A primeira temporada gira em torno de Edwards, formado em Harvard e pós-graduado na França, tentando se afirmar no Knick, enquanto é constantemente perseguido e humilhado por Thackery e seus colegas – que são bem menos competentes do que imaginam. E isso reflete bem o que interessa a Soderbergh no seriado. Se “Grey’s Anatomy” está interessada na cirurgia como porta de entrada para a vida romântica de seus personagens e “House” usava a medicina como moldura para uma releitura de Sherlock Holmes, o cineasta enxerga o hospital como o lugar perfeito para fazer um retrato da sociedade nova-iorquina da época.

O local é onde a classe mais privilegiada e os pobres mais indigentes se colidem diariamente e, na busca primal por sobrevivência, as diferenças e semelhanças entre eles ficam mais claramente acentuadas e pungentes. Nesse sentido, “The Knick” se assemelha aos dramas de época ingleses com a nobreza no “andar de cima” e os serviçais do “andar de baixo”.

Não por acaso, os personagens do seriado estão constantemente descendo escadas escuras, acompanhados pelos longos e fluidos movimentos de câmera de Soderbergh. Se no andar de cima o teatro social acontece, com Thackery buscando a glória e o progresso científico, num misto de vaidade e genialidade, é no andar de baixo onde a medicina realmente é feita, atendendo às necessidades mais básicas e reais da época – seja com Edwards construindo seu consultório clandestino, ou com a freira (Cara Seymour) que faz abortos nas horas vagas.

Essa justaposição fica bem clara no segundo episódio, que conta ainda com um plano-sequência que deixa bem claro a ideia do hospital como um microcosmo do caldeirão social do período. Com movimentos quase imperceptíveis e sem cortar, Soderbergh acompanha todos os personagens chegando ao Knick pela manhã, ressaltando na ordem de chegada, no figurino, na atitude e na expressão, os papéis sociais que estão prestes a desempenhar ali. E a trilha eletrônica de Cliff Martinez acentua ainda mais esse olhar clínico e anacrônico.

Para quem a realização técnica impecável de Soderbergh – que compete à altura com o trabalho de Cary Fukunaga em “True Detective – não é o bastante, “The Knick” é um olhar assustadora e sanguinariamente divertido sobre a cirurgia no início do século passado. A série não é sobre procedimentos mágicos salvando o dia. Pelo contrário. Uma enfermeira eletrocutada durante uma cirurgia é quase cômico, se não fosse tão realista. “The Knick” não é para os estômagos fracos, mas é disparado a melhor terapia ocupacional encontrada por um aposentado que você já viu.

Quase reais

Apesar do seriado não seguir eventos reais, o personagem de Thackery é inspirado no médico pioneiro William Stewart Halsted (1852 - 1922). Já Algernon Edwards foi baseado no Dr. Louis T. Wright (1891 - 1952).

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