Uma identidade desenterrada

Último dia da mostra traz chance de conferir “Ida”, drama que toca de forma realista nas cicatrizes do Holocausto

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Mergulho. Longa sobre a descoberta de um passado familiar já recebeu mais de 20 prêmios em festivais
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Mergulho. Longa sobre a descoberta de um passado familiar já recebeu mais de 20 prêmios em festivais

Em “Ida”, o diretor polonês Pawel Pawlikowski (“Meu Amor de Verão”) insiste em fotografar suas personagens com um grande espaço acima de suas cabeças. Um teto vasto e incômodo que parece buscar o tempo todo por um Deus, ao mesmo tempo em que questiona se ele está mesmo ali em cima.

E ele muito possivelmente não está. Porque essa é exatamente a essência do roteiro do próprio Pawlikowski com Rebecca Lenkiewicz. A ideia de que não se pode recorrer a Deus para curar ou corrigir os destroços causados por nossa própria humanidade. É preciso encará-los de frente e tentar perdoar – porque o perdão de Deus, no fim das contas, não vai fazer diferença nenhuma quando você tiver que acordar no dia seguinte.

O filme, que será reprisado hoje às 20h30 encerrando a programação do Indie 2014 no Sesc Palladium, acompanha a jovem do título (Agata Trzebuchowska). Criada como noviça em um convento na Polônia do pós-guerra, ela vai visitar a tia Wanda (Agata Kulesza), que nunca conheceu, antes de fazer seus votos e se tornar freira.

Chegando lá, Ida descobre que, na verdade, é judia e seus pais foram assassinados durante a Segunda Guerra. Meio a contragosto, já que a protagonista não sente nenhuma conexão com esse passado desconhecido ou com uma tragédia que ela não reconhece como sua, Wanda leva a sobrinha em uma jornada para descobrir o que exatamente aconteceu com sua família e onde seus corpos estão enterrados.

A partir daí, “Ida” se torna o choque cultural entre a resignação católica da noviça e a indignação amarga da tia, que faz questão de escancarar no alcoolismo, no cigarro e na expressão acabada as marcas da injustiça que seu povo sofreu. E é mérito da direção de Pawlikowski que, para um tema tão pesado, ele consiga encontrar uma comédia de opostos no convívio das duas, de onde algum afeto entre elas pode começar a surgir.

Em contraponto a essas emoções da encenação, o cineasta deixa bem claro o realismo e o caráter sombrio da história na bela fotografia em preto e branco de Ryszard Lenczewski e Lukasz Zal. Mas um detalhe importante que pode passar despercebido pelo espectador é a quase ausência de trilha musical incidental. Quase todo o uso de música no filme é diegético, com canções vindas do rádio ou da banda de jazz do saxofonista que flerta com Ida.

Com essa ausência de uma melodia vinda do além, Pawlikowski parece ressaltar essa ideia da ausência de Deus, contraponto a beleza e a vida do mundo que Wanda quer que a sobrinha experimente antes de sacrificar sua vida por uma fé que não é a dela. E apesar do longa receber o nome de Ida, o verdadeiro show é de Agata Kulesza, como essa tia tão acostumada à dor que não vai parar até mostrar a Ida todos os horrores do mundo que ela pensa que vai poder resolver presa em um convento com suas orações.

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