Falabella, o sexo e as negras

Artista fala sobre sua nova série, “Sexo e as Negas”, e novos projetos, que incluem um épico a la “Game of Thrones”

iG Minas Gerais | Lucas Simões |

Elenco. Miguel Falabella com as protagonistas de “Sexo e As Negas”, que vai ao ar todas as terças na Globo, às 23h
GLOBO/Alex Carvalho
Elenco. Miguel Falabella com as protagonistas de “Sexo e As Negas”, que vai ao ar todas as terças na Globo, às 23h

Rio de Janeiro. “O clima não é de subúrbio, é de favela!” Quando alguém grita isso no meio da Cidade Cenográfica 3 do Projac, no Rio de Janeiro, Miguel Falabella logo apura o ouvido para replicar a exclamação, seguro por um sorriso malandro no rosto: “E não tem nenhuma afrodescendente aqui, é tudo nega, viu? Porque o que a gente quer é chamar o preconceito pra tomar uma cerveja”. 

Assim como quem desconstrói um padrão de pudor e sugere uma nova fórmula para tentar podar estereótipos brasileiros na TV, a série “Sexo e as Negas”, uma paródia de “Sex and The City”, estreia na Globo, no próximo dia 16 de setembro.

Aos 57 anos, Falabella está mais agitado do que nunca. De camisa colorida e um Ray-Ban de lentes verdes no rosto, ele clama por um cigarro enquanto volta e meia despeja suas pulsões argumentativas, que vão desde sua famosa expressão “eu gosto é da morte” até a certeza de que novela ele não faz mais. Entre uma frase e outra, Falabella se afirma como uma “puta chinesa”, capaz de negociar qualquer coisa com qualquer um.

  • ENTREVISTA
  • Em conversa com o Magazine, Falabella falou sobre o novo trabalho, e as ideias borbulhantes da sua cabeça.

     

  • Você teve resistência para emplacar “Sexo e As Negas” na televisão aberta?
  • Claro que eu tive e eu sabia que ia ter. O título mesmo, o pessoal não gostou muito, não. Achou apelativo. Mas tem uma coisa do carioca de dizer “nega” de um jeito muito peculiar, comendo o “S”. Isso eu não ia abrir mão porque eu sou uma puta chinesa: negocio com qualquer um a que preço for. Mas outras coisas a gente tem que ceder, estamos em tempos politicamente corretos, apesar de ser na faixa das 23h e 0h. Em um episódio mesmo, tinha uma fala de um cara dizendo para uma das meninas assim: “eu vou te comer”. Aí ela replica dizendo: “eu é que vou te comer”. Quase me mataram, tive que tirar.  
  • Da sua ideia original, a essência da série foi mantida mesmo com as podas?
  • Não tinha como não ser mantida a essência que a gente quer. O que eu queria falar está lá. É claro que algumas coisas foram cortadas e revisadas e nem tudo é escrachado e mastigado para o público. Porque para bom entendedor, meia palavra basta. Quero fazer as pessoas pensarem, claro. Mas a mensagem é de mulheres donas do próprio corpo em um mundo avesso a elas. É um enfrentamento mesmo. Aquela ideia da mulher de que um dia virá um príncipe, a busca pelo macho ideal, que pode vir ou não, se transformou num episódio chamado “Encaixe”. Nele a gente explora desde o encaixe do sexo, até os encaixes de carreiras profissionais, preconceitos, tem tanta coisa para encaixar no mundo ainda.  
  • E o “Sex And City” é uma forma de crítica ou você gosta do seriado para ter se inspirado nele?
  • Gosto não, sou apaixonado pela série toda, revi várias vezes e revejo ainda. É uma inspiração descarada, uma paródia carioca sem qualquer pudor em cima de um enredo de muito sucesso norte-americano. Copiar é uma coisa que eu nem sei fazer, compreende? Eu não conseguiria fazer uma versão de “Sex And City”. Por isso o “Sexo e As Negas” é original, inovador na medida em que ele cria um novo mundo na TV que as pessoas vivem todo o dia.  
  • Algumas críticas se atentam ao fato de que “Sexo e As Negas” pode provar do próprio veneno ao tentar falar de preconceito usando uma linguagem mais escrachada. Tem esse perigo? 
  • Olha, isso aí eu vou responder por satisfação mesmo, mas me dá uma preguiça. Isso é Paquistão (terrorismo), meu amigo. Eu nem perco meu tempo lendo esse tipo de crítica, sendo que eu tenho tanta coisa boa e importante para ler. Pra mim, quem diz que há preconceito numa série que nem estreou ainda, sem ver como a coisa vai acontecer, ah... Isso é coisa de quem nunca leu Machado de Assis. Cabeça pequena, deixe estar.  
  • Dos projetos novos, quais têm te tomado mais tempo e interesse?
  • Eu tenho insônia, tá sabendo? Então um dos meus hábitos é vagar pela casa à noite, sentar no computador e pesquisar, escrever. Numa dessas me deparei com os quilombos do século XVIII na minha barra de pesquisa e ali existe um foco incrível de história: os saqueamentos feitos nas estradas, a condição das mulheres, as formas de sobrevivência, muita coisa. Tô bolando uma série sem veia cômica, vai ser drama mesmo, quero uma coisa épica, bem ao estilo “Game Of Thrones”, superprodução genuinamente brasileira. Mas não tem data ainda nem projeto sendo tocado com equipe por enquanto.  
  • As séries são o caminho que você está mais propenso a seguir?
  • Eu não faço novela mais, anota aí para constar. Tenho encontrado outras linguagens e formas de contar histórias nos seriados. E isso é fantástico, sim. Na semana passada entreguei “O Homem De La Macha” (montagem musical inspirada em Dom Quixote, que estreia no Sesi-SP neste domingo, dia 14, em uma repaginação da peça norte-americana no Brasil, após 42 anos da primeira estreia). Tô trabalhando em um outro musical norte-americano também, que não posso falar nada ainda, além de um outro projeto, este um seriado, que vai se chamar “Deus Estava Dormindo”, com uma abordagem completamente humorística. O mundo que criei é de um céu onde Deus está rendido por arcanjos espertalhões, que querem tomar o poder e mudar o destino de uma família que acabou de morrer. É uma sátira, não é para 2015 ainda, mas tá tudo engatilhado.  
  • Você tem um apego com a morte que vem de onde? 
  • Nem é uma questão de apego. É um jeito de olhar a morte sem aquele medo, aquela tristeza, esse pavor que todo mundo parece ter que sentir obrigatoriamente. Lembro que antes de estrear "Pé Na Cova", críticas vieram justamente do fato de fazer graça com a morte. Depois que a série começou, teve gente dizendo que nem liga tanto de entrar num cemitério e outras me escrevendo para contar que agora vão a velórios de forma menos densa, com mais leveza.  
  • O que você deseja muito fazer ainda como ator e diretor e ainda não realizou? 
  • Eu queria ser muita coisa que nunca vou ser, de Dom Quixote à Carmem Miranda, então não penso tanto nisso. Quero é terideias borbulhando na minha cabeça o tempo todo. Porque acredito que o sucesso nunca será mais importante do que os acontecimentos. Importante é o que você faz realmente, de verdade, é fato. Ponto. Não o que dizem para ser aplaudido.  

     

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