A hora e a vez das atrizes negras na TV

Maria Bia, Lilian Valeska, Karin Hills e Corina Sabbas são as estrelas do seriado que fala sobre a mulher

iG Minas Gerais | Lucas Simões |

No Cordovil. Maria Bia, Lilian Valeska, Karin Hills e Corina Sabbas na cidade cenográfica em que é gravada a série
Globo
No Cordovil. Maria Bia, Lilian Valeska, Karin Hills e Corina Sabbas na cidade cenográfica em que é gravada a série

Rio de Janeiro. “Sexo e as Negas” é, nas palavras do seu autor, Miguel Falabella, uma espécie de “paródia carioca” de “Sex And City”, mas com padrão global e um texto humorístico inspirado em dilemas da mulher moderna. No lugar de loiras exalando glamour por Nova York, o seriado traz quatro mulheres negras, todas moradoras da Cidade Alta de Cordovil– um pano de fundo na zona norte do Rio especial para Miguel Falabella, que escreveu os 13 capítulos da série inspirado em uma empregada sua que morou lá. “Sempre frequentei o Cordovil, entro nas casas, almoço com os vizinhos. O Cordovil representa o espírito de gente diversa convivendo com as diferenças sem frescura”, diz Falabella.

Em uma pequena cidade cenográfica de 1.000 m², o autor da série e a diretora geral, Cininha de Paula, reuniram a imprensa e cerca de 40 atores e funcionários da produção na última segunda-feira para apresentar um recorte do Cordovil, no Projac.

O espaço é composto apenas por um bar, um salão de beleza, uma banca de revistas e três casas. Isso porque a maioria das cenas foi gravada na própria comunidade, além de locações na Zona Sul do Rio, como Leblon e Copacabana – que ilustram os locais de trabalho das protagonistas. “É muito difícil reproduzir a favela de forma natural e em grande escala. Escolhemos um espaço menor justamente para ser mais minimalista, fizemos as pichações no muro, a parede descascada da rua, o bar real do Jarbas que aqui virou Bar da Jesuína, o salão de beleza e até uma laje idêntica a uma da comunidade, tudo como realmente existe no Cordovil”, conta o cenógrafo Keller Veiga.

Nesse cenário, as protagonistas encarnam espécies de anti-heroínas, que desfilam a preocupação feminina com a vaidade estética na mesma medida em que lutam por uma vida melhor, falam de tesão abertamente e impõem a liberdade da mulher em personalidades independentes de homens e julgamentos morais alheios. “A mulherada do Cordovil se veste igual às mulheres de Nova York. Isso é surreal de imaginar – ainda que elas paguem preços diferentes pelas roupas. A diferença é que no seriado as protagonistas se preocupam com brincos, botas, acessórios etc, sem que isso seja visto como mera futilidade, ainda mais porque são mulheres de conteúdo e fibra, com histórias de vida batalhadoras”, diz Cininha.

Assim, Soraia (Maria Bia) é uma empregada doméstica animada e propensa a confusões; Lia (Lilian Valeska) é uma recepcionista de churrasqueira e a mais bem comportada das amigas; Zulma (Karin Hills) é uma camareira alvo de fofocas por ter comportamento livre – principalmente o sexual – e, por fim, Tilde (Corina Sabbas), uma romântica que vive o drama do desemprego e sobrevive de bicos.

Em comum, além de não terem nomes conhecidos pelo grande público de novelas, todas as atrizes têm experiências em teatro musical, o que acabou sendo aproveitado na série. No fim de cada episódio, as quatro encarnam um show inspirado nas Marvelettes dos anos 1960. Mas no lugar de canções ingênuas sobre a mulher, as atrizes-cantoras entoam espécies de hinos apoiados no funk e soul setentistas, que dizem coisas como “eu nunca fui Rapunzel / meu cabelo é da hora / se deixar ele enrola / como eu me enrolo em você”. As letras bem-humoradas são assinadas por Falabella e o jornalista Arthur Xexéo.

 

Apesar de algumas críticas de que o seriado poderia reforçar o preconceito ao usar termos como "favelada", "cabelo duro" e "pretinha" sem papas na língua, além de carregar um título forte para a televisão aberta, as próprias atrizes discordam destas concepções. Para Karen Hills, que interpretou uma das "cachorras quentes" do seriado "Pé Na Cova", como ela se refere a sua personagem, a linguagem direta e popular deste novo seriado reflete o público comum. "Dizer cabelo sarará não é ofensa, assim como nêga também não, dentro de um contexto e uma vivência. A série tem a pegada de mostrar para as pessoas que ninguém precisa ter escolhas de vida que os comerciais impõe, a menina loira linda do olho claro que tem carro dado pelo papai ou a ruiva descolada que tem um emprego bem sucedido numa firma legal e por aí vai. Queremos mostrar que que cada um pode ser o que é", pontua.   Por outro ângulo, a atriz Lilian Valeska, recém-saída da encenação "Todos Os Musicais de Chico Buarque", reforça que "Sexo e as Negas" também tem a intenção de fisgar o público com um novo tipo de protagonistas, que não precisa seguir as amarras da chamada “ditadura da beleza” contemporânea. "O que a gente quer é que outras meninas se inspirem e queiram ser como a gente, ou melhor, queiram ser como elas mesmas. Ninguém precisa ter vergonha do cabelo que tem ou das roupas que veste". completa.    Como sempre faz, Miguel Falabella também trouxe atores acostumados a trabalhar com ele desde os tempos de "Sai de Baixo", como Cláudia Jimenez. A atriz vive a Dona Jesuína, proprietária de um boteco e ponto de encontro das amigas protagonistas, além de manter uma rádio comunitária que vai ter a função principal de defender os direitos da mulher. "Me inspirei muito na mulher brasileira que pega ônibus, nem sempre está maquiada, mas entendeu que gostar muito de se embelezar também é virtude de mulher guerreira", diz. Assim como ela, a atriz Alessandra Maestrini aparece quase irreconhecível com uma cabeleira loira e visual sexy, bem diferente da empregada Bozena de Toma Lá da Cá ."Eu não queria ficar loira, é a verdade. Mas como o Miguel não aceitou um não meu, claro que embarquei nessa e até estou gostando de ser loira fatal. P clima de família que ele (Falabella) consegue criar, ninguém faz", diz Maestrini.   Com  episódios de cerca de 31 minutos semanais, "Sexo e As Negas" vai ser exibido às terças-feiras, após o seriado "Tapas e Beijos", na faixa de 0h. A nova série substitui até dezembro "Pé Na Cova", também de Miguel Falabella, que terá segunda temporada a partir de janeiro do ano que vem.   

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