Falta de pediatras em UPAs sobrecarrega pronto-socorro

Médica afirma que problema é recorrente durante os fins de semana; João Paulo II é o maior afetado

iG Minas Gerais | Luiza Muzzi |

Indicação. Espera de pacientes em hospitais conveniados, como no João Paulo II, chega a seis horas
Luiza Muzzi
Indicação. Espera de pacientes em hospitais conveniados, como no João Paulo II, chega a seis horas

Conseguir um atendimento pediátrico de urgência nos fins de semana tem se tornado uma verdadeira luta para centenas de mães que precisam do serviço na rede pública de Belo Horizonte. Com a ausência dos especialistas de plantão em quase todas as Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) da capital, a maioria das famílias acaba recorrendo ao Hospital Infantil João Paulo II, da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), que, segundo funcionários, tem ficado sobrecarregado. O resultado é que algumas crianças chegam a ficar até seis horas esperando por atendimento. Revoltadas, mães imploram por soluções. A Secretaria Municipal de Saúde, por sua vez, reconhece o problema, alega dificuldade para completar o quadro de profissionais nos plantões e garante que tem tentado atrair médicos com reajustes nas remunerações.  

No último domingo, sete das oito UPAs da capital não contavam com pediatra no plantão diurno. A reportagem percorreu quatro dessas unidades – Barreiro, Oeste, Leste e Centro-Sul – e constatou que a orientação dos funcionários era que as famílias procurassem os pronto-socorros de hospitais das redes municipal e estadual. Na UPA Barreiro, um papel afixado na entrada alertava sobre a ausência do profissional no sábado, embora o problema tenha se repetido no dia seguinte. Enquanto isso, no João Paulo II, quatro pediatras se revezavam para atender as quase 30 crianças que aguardavam na fila. Algumas famílias chegaram a esperar três horas para as consultas. No entanto, segundo uma pediatra da unidade, que solicitou anonimato, o problema é constante, e a espera nos fins de semana chega a seis horas. Para ela, a superlotação se agrava justamente pela falta de profissional nas UPAs. Carência. Quem precisa enfrentar a espera reclama dos transtornos. Nesse domingo, a auxiliar de serviços gerais Gleice Kelly Pereira, 21, passou a madrugada esperando, sem sucesso, por atendimento para o filho Mikael, 7 meses, na UPA Norte. Depois de quatro horas, ela resolveu ir para o João Paulo II, onde levou mais duas horas e meia para descobrir que o bebê estava com infecção no ouvido. “É um absurdo. As UPAs deveriam ter pediatras 24 horas por dia”, reclamou Gleice. “A gente até aguenta as pontas, mas criança é muito indefesa, qualquer coisinha já derruba. E com essa espera toda, elas vão ficando impacientes, não aguentam”. A assessoria da Fhemig confirmou um “crescimento assustador” da demanda no hospital nos últimos quatro meses, mas alegou não poder afirmar se há uma ligação com a falta de pediatras nas UPAs. Uma hipótese é que as mudanças climáticas estejam favorecendo o surgimento de problemas respiratórios nos pacientes. 

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Exigência. Embora ofereçam serviço de pediatria, as Unidades de Pronto-Atendimento não são obrigadas a ter pediatras em tempo integral. Segundo o Ministério da Saúde, uma portaria de 2013 define que as UPAs precisam de um número mínimo de médicos – que varia conforme o porte da unidade – capazes de atender todo tipo de urgência e emergência, incluindo de crianças. Recorrente. Apesar das reclamações, a demora no atendimento não é exclusiva da rede pública. Pacientes com planos de saúde e particular também relatam longas esperas. “A gente paga o plano na expectativa de atendimento imediato, mas não é assim”, disse a contadora Fabiana Guimarães, 35, que, na semana passada, esperou uma hora para o filho ser atendido. Fechamento. De acordo com a Academia Mineira de Pediatria, pelo menos 12 hospitais fecharam seus serviços de pediatria nos últimos dez anos. Apesar disso, o número de vagas de residência da área tem crescido, e elas têm sido preenchidas. Vagas. A Fhemig reconhece a carência de profissionais no Hospital João Paulo II – em média, são quatro pediatras por plantão. Segundo a fundação, há um processo seletivo aberto há mais de dois anos para dez pediatras, mas a procura tem sido pequena. Atendimento. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, as UPAs trabalham com o Protocolo de Manchester, que prioriza o atendimento de pacientes mais graves. A classificação de risco é feita pelas cores vermelha (emergência), laranja (muito urgente), amarelo (urgente) e verde (sem urgência).

‘Remuneração ainda é insuficiente’, diz médico São vários os fatores que levam à desassistência pediátrica nas unidades de urgência e emergência de Minas, segundo a Academia Mineira de Pediatria. “Há uma quantidade razoável de pediatras no mercado, mas há um desestímulo da atuação na emergência, principalmente porque essa assistência não é financeiramente atraente, e o trabalho é desgastante e estressante”, afirma o presidente da entidade, José Sabino de Oliveira. O pediatra destaca que a demanda pela especialidade cresceu em ritmo superior ao do aumento do número de profissionais, o que criou uma defasagem. Além disso, as condições afugentam os profissionais. “Esses médicos precisam de um atrativo melhor, que, a meu ver, é a remuneração. Apesar de ela já ter melhorado, ainda não é suficiente”, afirmou. Outro problema é a procura excessiva pelas unidades de emergência, às vezes sem necessidade. “Qualquer situação simples gera um foco de ansiedade grande que leva à procura pelo médico. E essa demanda maior, às vezes injustificada, leva à sobrecarga no sistema”.

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