Moldado pela criatividade

Mostra “Made by… Feito por Brasileiros” abre ao público com obras de 91 artistas, no antigo Hospital Matarazzo

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Obras. Instalação “Cosmic Cavern”, do norte-americano Kenny Scharf
João Sal
Obras. Instalação “Cosmic Cavern”, do norte-americano Kenny Scharf

São Paulo. As paredes descascadas pela ação do tempo, em razão de mais de duas décadas de abandono do Hospital Matarazzo, compõem o pano de fundo para algumas das obras que podem ser vistas a partir de hoje na mostra “Made by… Feito por Brasileiros”, montada naquele espaço. Os azulejos danificados de vários cômodos também estão lá como vestígios de uma história de 110 anos, desde quando o prédio foi construído em 1904, a poucas quadras da avenida Paulista, na cidade de São Paulo.

Prestes a ser reformado para funcionar como um complexo capaz de receber turistas e amantes da arte, o ambiente vai abrigar durante cinco semanas uma grande exposição que reúne criações de 91 artistas. Há trabalhos de brasileiros, a exemplo de Lygia de Clark (1920-1988), Tunga, Nuno Ramos, Cildo Meireles, Paulo Nazareth, Rivane Neuenschwander, Vik Muniz, entre outros. Do grupo de estrangeiros, figuram nomes como os norte-americanos, Francesca Woodman (1958-1981) e Kenny Scharf; a francesa Celice Beau; e o chinês Wang Du.

O desafio foi ocupar a área de 27 mil metros quadrados com criações que permanecem lá, portanto, apenas nesse período. De acordo com Alexandre Allard, um dos idealizadores do projeto ao lado do curador Marc Pottier, o caráter efêmero da iniciativa frisa o processo de mudança que a edificação passa no momento.

“Essa exposição reflete um movimento que é semelhante àquele que permeia nossas vidas. Assim como tudo é dinâmico, as criações que estão aqui pretendem nos levar a perceber esse espaço de outra maneira, mas depois elas vão desaparecer”, disse ele, tomando como exemplo as pinturas de Janaina de Tschäpe que cobrem uma das paredes do prédio.

Por esse motivo, grande parte dos trabalhos presentes ali são propostas de instalações do tipo site-specific, que levam em conta as características arquitetônicas, a memória e a circulação possível naquele lugar.

“Toda essa exposição nasce de um espaço. Sem ele não haveria esse projeto. A ideia em torno disso é chamar atenção para a obra-prima que é o próprio edifício, que passa a dialogar com todo esse conteúdo exposto”, acrescenta Allard.

Norteada por Marc Pottier, a curadoria contou com a contribuição de outros sete profissionais, entre eles o norte-americano Simon Watson, que atualmente vive entre Nova York e São Paulo, além dos brasileiros Baixo Ribeiro, fundador da galeria Choque Cultural, e Marcelo Rezende, curador-chefe da 3ª Bienal da Bahia.

O resultado disso é um vasto panorama que percorre múltiplas linguagens, desde pinturas, fotografias, esculturas, vídeos e instalações. Algumas destas, inclusive, aparecem mescladas com a performance. É o caso do trabalho que Tunga leva para os jardins do ex-hospital. Composta por grandes vasos de cerâmica dispostos com outros mecanismos como um objeto usado para debulhar o milho, a obra, para ele, se situa nessa fronteira de possibilidades.

“Ao longos dos dias, duas equipes de performers vão se revezar porque eles fazem parte da obra. É como se essas pessoas ativassem as engrenagens desse trabalho que simboliza uma espécie de encontro entre o sol e a lua. Há nessa organização uma alusão poética à transformação das sementes do milho em sementes de diamantes”, explica Tunga.

Já adentrando o espaço, o carioca Marcelo Jácome, conhecido pela pesquisa de composição utilizando o colorido das pipas, atravessa uma das salas com uma instalação. Ali, ele usa apenas materiais que dão estrutura a esses brinquedos, como hastes de bambu e corda. A obra, ao seu ver, representa uma retomada das origens de sua formação.

“Antes de ser artista plástico, eu me formei em arquitetura, então eu tenho uma grande fixação por questões estruturais. Aqui, nesse espaço, eu acho que acabei elaborando uma espécie de decomposição de minhas criações anteriores”, observa Marcelo Jácome, que apresenta seu trabalho ao lado das esculturas-estalagmites de Cecile Beau.

“Ela criou esculturas feitas de pedaços de tijolos, que nos recordam os restos de um prédio, os seus escombros. Essa obra se relaciona profundamente com a memória, o presente e o futuro desse lugar que está nessa etapa de transformação”, ressalta o francês radicado no Brasil, Marc Pottier.

O repórter viajou a convite da exposição “Made by...”

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave