Medo contribuiu para suicídio

Agente penitenciário escreve carta em protesto contra situação de contratados e se mata em seguida

iG Minas Gerais | bernardo miranda |

Jefferson Avelar trabalhava no presídio de Muriaé e tentou passar no concurso por duas vezes
JOAO GODINHO /O TEMPO
Jefferson Avelar trabalhava no presídio de Muriaé e tentou passar no concurso por duas vezes

O medo de perder o emprego, a concorrência dos colegas e um quadro de depressão levaram o agente penitenciário Jefferson Anísio Gonçalves de Avelar, 29, ao nível máximo de desespero, que culminou com o suicídio. Ele trabalhava no presídio de Muriaé, na Zona da Mata, e se matou no último dia 13. O jovem estava em tratamento com antidepressivos, mas os pais dele acreditam que o estresse gerado pela situação que vivia no sistema prisional foi o ponto decisivo que o levou a tomar essa atitude.

Agente penitenciário contratado, Avelar era entusiasmado e orgulhoso com a profissão. Porém, a ideia de ser demitido o aterrorizava. Ele tentou por duas vezes ser aprovado no concurso, mas fracassou. Antes de cometer o suicídio, o agente gravou um vídeo, com o uniforme de trabalho, dizendo que o que estava fazendo era um protesto contra a demissão dos servidores contratados do sistema prisional.

Com a família, as reclamações da situação eram constantes. A mãe de Jefferson Avelar, a aposentada Maria Nilcéia Gonçalves, 63, conta que o filho estava aflito para ser aprovado no concurso. “Ele estava com uma obsessão em passar no concurso. Acordava às 5h todos os dias para estudar”, contou. Apesar de conhecer o quadro depressivo do filho, ela não imaginava que ele teria a atitude extrema. “Ele estava em um momento mais tranquilo. Tinha acabado de sair de férias e iria aproveitar o tempo livre para intensificar os estudos. Se não fosse a pressão que ele vivia no trabalho, não teria se matado”, desabafou.

Frequesntes. Com o pai, as reclamações do agente eram mais fortes. “Meu filho era submetido a constrangimentos por causa da profissão e da condição de contratado. Por mais de uma vez ele reclamou comigo de que foi obrigado a torturar presos. Ele odiava ter que se prestar a isso, mas fazia porque cumpria ordens com medo de ser demitido”, contou o também aposentado Isaías Avelar, 76. Divorciado, ele não morava com o filho. Porém, mesmo vivendo em Eugenópolis, a 25 km de Muriaé, mantinha sempre contato com o agente.

Ajuda

Pedido. A Secretaria de Estado de Defesa Social afirmou que não recebeu pedido de atendimento psicológico antes de Avelar cometer suicídio e disse que está prestando apoio à família.

Propostas de mudanças

Concurso. Pelas regras atuais, os agentes contratados não contam com nenhuma vantagem quando se inscrevem no concurso. Independentemente do tempo em que atua no sistema prisional, eles disputam em igualdade com os demais inscritos. Legislação. Um projeto de lei que tramita na Assembleia Legislativa de Minas prevê a alteração dessa regra. Na proposta, os agentes penitenciários contratados teriam uma bonificação por tempo de serviço prestado. Extensão do contrato. O projeto também altera a lei que regulamenta a contratação dos agentes penitenciários. O texto prevê que o vínculo possa ser renovado, mesmo o profissional estando há seis anos no sistema.

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