Um olhar transcendental

Retrospectiva de Eugène Green, no Indie BH 2014, revela o cinema autoral de um cineasta pouco conhecido no país

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Poesia, teatro e pintura são influências do diretor “europeu”
Indie/ Divulgação
Poesia, teatro e pintura são influências do diretor “europeu”

Uma atriz e uma freira conversam: “Quando desaparecemos à força de tanto amar, deixamos de ser aquilo que somos”, diz a religiosa portuguesa, mais transcendental que dogmática. “E o que nos tornamos?”, indaga a outra. “Nos tornamos aquilo que somos”. “E o que encontramos?” “A vida”. “Encontrar a vida é o que mais desejo”, responde a atriz.

Vemos essas duas mulheres frente a frente em “A Religiosa Portuguesa” (2009), um dos principais filmes do diretor Eugène Green, homenageado com uma retrospectiva no Indie BH 2014. Porém, a certos instantes, a câmera interpõe-se entre elas, capturando um olhar que atinge diretamente o espectador.

Esse tipo de quebra do naturalismo rara no cinema é comum na obra de Green, diretor ainda pouco conhecido no Brasil, onde seus filmes não circularam suficientemente, mas considerado fundamental entre os que se dedicam ao cinema autoral, de risco.

Nascido nos Estados Unidos, em 1947, Green abandonou o “País dos Bárbaros” (palavras dele) e o idioma inglês, adotando o francês como identidade. Dirigiu seu primeiro filme, “Todas as Noites” (2001), aos 54 anos, quando já acumulava experiências como dramaturgo, poeta e nas artes visuais. Sem mais demora, imprimiu um estilo singular já na estreia. “Uma certa construção muito própria da interpretação dos atores: a entonação, a postura do corpo, o posicionamento da câmera, um antinaturalismo, sem improvisação”, observa Daniella Azzi, uma das curadoras do Indie, no catálogo da mostra.

Até quarta-feira, é possível assistir a três curtas-metragens e quatro longas do francês por opção (veja programação no quadro abaixo). Entre seus principais trabalhos, estão o já citado “A Religiosa Portuguesa” e “A Ponte das Artes”. A cena mais emblemática deste filme é a interpretação de da ária “O Lamento da Ninfa”, de Monteverdi, por Natacha Régnier, e a reação emocionada dos atores e músicos presentes captada com o olhar direto para a câmera, compartilhando o estado de afetação com o espectador.

“O olhar para a câmera é uma postura de trazer o espectador para o filme de maneira diferente do que se faz na maioria das vezes, menos buscando a identificação cega e mais a postura crítica a essas imagens”, observa o professor e pesquisador em história e estética do cinema e audiovisual Pedro Maciel Guimarães.

Admirador da obra de Green, Guimarães reconhece nele um “jeito europeu” de fazer cinema, que passa pelo rompimento com preceitos básicos do cinema clássico norte-americano, entre eles a filiação a um gênero e a busca da identificação entre espectador e personagem. “Mas o principal é que ele se alimenta do espírito europeu de erudição, de valores da cultura greco-romana”, destaca o pesquisador. “Essa relação EUA-Europa já viu muitos cineastas fazerem o percurso contrário, o que faz o projeto do Green ser ainda mais singular no cinema contemporâneo”.

Tal como se percebe no filme “A Religiosa Portuguesa”, há uma submissão da razão ao transcendental na visão de mundo exposta por Green. “O transcendental dele passa necessariamente pelas artes clássicas, pintura e teatro, principalmente. É quase um transe artístico que move seus personagens, acima de qualquer motivação psicológica”, diz Guimarães.

Essa pluralidade de linguagens pode ser entendida como uma das fontes da liberdade formal do cineasta. “Um diretor que se exercita em outras artes, teatro ou pintura, principalmente, tem maior possibilidade de levar particularidades dessas artes para os filmes, e isso, claro, modifica a concepção do filme”, opina o pesquisador.

Acompanhe

Sessão de curtas, no Cine Humberto Mauro, às 16h:   HOJE. “Correspondências”, 2007, Coreia do Sul/França, 35 min, Digital;

“Os Sinais”, 2006, França, 31 min, 35 mm; e

“O Nome do Fogo”, 2002, França, 20 min, 35 mm. 

AMANHÃ. “A Ponte das Artes”, 2004, França, 122 min, 35 mm. Cine Humberto Mauro, às 16h.

“Todas as Noites”, 2001, França, 110 min, 35 mm. Cine Humberto Mauro, às 18h.

QUARTA. “La Sapienza”, 2014, França/Itália, 104 min, DCP. Belas Artes, às 14h50.

“A Religiosa Portuguesa”, 2009, Portugal/França, 128 min, 35 mm. Cine Humberto Mauro, às 16h.

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