Metal que corre pelas veias

Cavalera Conspiracy volta a BH, cidade natal dos irmãos Max e Iggor, onde a história do Sepultura começou

iG Minas Gerais | lucas buzatti |

Tudo em família. Os irmãos Max e Iggor comandam o Cavalera Conspiracy ao lado de Mark Rizzo (guitarras) e Nate Newton (baixo)
cavalera conspiracy / divulgação
Tudo em família. Os irmãos Max e Iggor comandam o Cavalera Conspiracy ao lado de Mark Rizzo (guitarras) e Nate Newton (baixo)

Três décadas atrás, Max e Iggor Cavalera subiam num palco pela primeira vez, com o então estreante Sepultura. Barroliche era o nome da casa de shows, no Barroca, em Belo Horizonte, onde hoje funciona uma oficina mecânica. Respectivamente com 15 e 14 anos, os irmãos mineiros, que ensaiavam em baterias de panela e violões empoeirados, mal sabiam tocar quando encararam seu primeiro público. Como era de esperar, a recepção não foi das mais calorosas, exceto por dois ou três rockers com camisetas do Motörhead.

Cinco anos depois, a banda lançava “Beneath the Remains”, disco que já vendeu mais de 800 mil cópias e provou o potencial do grupo, que não tardaria a se solidificar como um dos maiores fenômenos da música pesada mundial. Mas a história do Sepultura com os Cavalera mudaria abruptamente em 1997, com a tempestuosa saída de Max, logo depois do lançamento do clássico “Roots”. Nove anos depois, foi a vez de Iggor deixar a banda.

Em 2007, porém, Iggor surpreendeu os fãs ao martelar na bateria músicas da antiga banda em um show do Soulfly, grupo do irmão, com quem não falava nem tocava havia anos. Do episódio, surgiu a ideia de voltar a comporem e tocarem juntos em um novo projeto – o Cavalera Conspiracy, que volta a Belo Horizonte, no próximo sábado, no Music Hall.

“Pô, na época foi um alívio pra mim, na verdade. Principalmente porque ficamos dez anos sem nos falarmos, um tempo muito difícil”, lembra Max, de sua casa em Phoenix (EUA), por telefone. Ele assinala o diferente astral que domina os processos do atual grupo. “É tudo muito legal de fazer. Não tem pressão, não tem estresse. A gente faz o que quer, na hora que quer, sem ninguém mandando”, diz o guitarrista e vocalista, hoje aos 45 anos.

Na primeira passagem pela capital mineira, em 2012, havia quase 20 anos que Max não visitava sua cidade natal. “Cara, foi emocionante. Um show que tinha gente até chorando na frente do palco. Tocamos ‘Troops of Doom’ com o Jairo (Guedes, primeiro guitarrista do Sepultura), que é um cara que eu gosto muito. Sem contar que adoro BH. Deu para visitar minha tia, mostrar pro Zyon e pro Igor (seus filhos de 21 e 19 anos) o barraco no Santa Tereza onde a gente cresceu”, conta o músico. “Provavelmente, vou voltar muito a BH. Tenho contato com o videomaker canadense Scot McFadyen, que fez o documentário ‘Global Metal’, e ele quer gravar um projeto sobre a história da minha vida”, revela.

Repertório. Prestes a lançar o terceiro disco, “Pandemonium”, o Cavalera Conspiracy vai misturar no show de BH músicas inéditas e dos dois últimos trabalhos, “Inflikted” (2008) e “Blunt Force Trauma” (2011). “O disco novo ficou mais barulheira, está muito rápido. Queria ver o Iggor tocando bem thrash, tipo na época do ‘Arise’ (disco de 1991). É o meu preferido dos três. Traz o lado mais metal dos irmãos”, conta Max.

O álbum, que deve sair no mês que vem, foi gravado num estúdio modesto a poucas quadras da casa do músico. “Queria a coisa mais underground possível. Eu faço a maioria dos riffs em casa, sozinho. Depois, levo para o estúdio e tocamos juntos, com headphone, pra dar um clima de ao vivo. Não é igual às bandas de hoje, que usam muita tecnologia”, explica.

O repertório conta, ainda, com canções do Nailbomb – banda de Max e Alex Newport, que durou apenas um ano e gravou um único disco, ‘Point Blank’ (1994) – e do Sepultura. “Pensamos em tocar coisas antigas, que fizemos juntos. Mas novas versões, que mostram o nosso lado compositor”, afirma Iggor Cavalera, 44. Max deixa escapar que “Necromancer”, do primeiro disco, “Bestial Devastation” (1985), é uma das opções. Também entusiasmado com a apresentação, o irmão baterista volta e meia vem a BH com o Mixhell, projeto de música eletrônica que divide com a esposa, Laima Leyton. “Vamos aí direto, tocar no Deputamadre, que para mim é um dos melhores clubes do mundo. O público de BH é muito legal, é sempre gostoso voltar. Tem todo esse clima de saudade”, diz Iggor.

Memória. Metaleiros quarentões, os Cavalera relembram com nostalgia os primórdios na capital mineira. “A gente ficava na frente da (gravadora) Cogumelo, ouvindo death metal a tarde toda. Depois, ia pra Savassi zoar o barraco, ficar chapado. Era muito legal. Sinto falta desses tempos”, recorda Max. “Pô, foi a criação de uma cena que não existia. Eram poucas as pessoas que curtiam ouvir som, trocar ideias e discos, ver shows; que queriam conhecer e fazer coisa nova, e conseguiram. Tenho muito orgulho de ter participado disso”, completa Iggor.

O momento atual, contudo, é bem diferente dos tempos de loucura e batalha dos anos 80. Seja pelas carreiras consolidadas, por novos objetivos musicais ou mesmo pelo “ambiente família”. “Meus filhos vão a shows de metal desde quando tinham um ano de idade. Então, essa influência acaba sendo natural. Está meio que na veia. Mas os do Max estão curtindo mais, já estão mais velhos, já tocam”, diz Iggor. Zyon (bateria) e Igor (guitarra) tocam juntos na banda Lody Kong, enquanto o primeiro também acompanha o pai em alguns shows do Soulfly. “Quero muito que ele grave o próximo disco comigo. Sempre sonhei em envolver meus filhos nesse universo, fico muito feliz de ter a chance agora. Os Cavalera estão mais metal que nunca. É metal em família, né?”, conclui Max.

 

Agenda

O QUÊ. Cavalera Conspiracy em BH

QUANDO. Sábado, a partir das 20h

ONDE. Music Hall (av. do Contorno, 3.239)

QUANTO. Lote I – R$ 80 (meia) e R$ 160 (inteira) Lote II – R$ 100 (meia) e R$ 200 (inteira)

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave