Família e amigos revivem clima do baiano do mar “Dorival Caymmi – Centenário” traz raridade de Caetano, Chico e Gil em uma mesma canção Homenagem

“Dorival Caymmi – Centenário” traz raridade de Caetano, Chico e Gil em uma mesma canção

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Em casa. No ano de seu centenário, Caymmi ganha disco quase familiar, com regravações de seus clássicos
omar freire/divulgação
Em casa. No ano de seu centenário, Caymmi ganha disco quase familiar, com regravações de seus clássicos

“Escrevi 400 canções e Dorival 70. Mas ele tem 70 perfeitas e eu não”. A definição de Caetano Veloso sobre Dorival Caymmi resume um compositor que se auto-ironizava como preguiçoso, por ter nascido um dia antes do Dia do Trabalhador, e que apesar de ter deixado uma obra enxuta, conseguiu tornar unânimes suas popularidades simples como a mania de balangandãs, a vida despretensiosa no mar e a Maracangalha. Por isso, mais do que um disco de homenagens com regravações clássicas, “Dorival Caymmi – Centenário” (Biscoito Fino) consegue trazer à tona o clima em que o baiano gostava de viver.

Com arranjos sinfônicos divididos entre o filho Dori e Mario Adnet, todas as canções do baiano ganharam orquestrações impecáveis, sustentadas principalmente por 15 músicos de sopro – sendo que os arranjos foram trabalhados durante três anos, antes das gravações no estúdio da Biscoito Fino, no Rio de Janeiro, em março deste ano.

Além da sonoridade singular e limpa, “Dorival Caymmi -– Centenário” parece trazer as escolhas de seus intérpretes a dedo, como se tivesse sido chamado apenas o pessoal de casa. Assim, o álbum reúne três figuras fundamentais para MPB e para o baiano de todos os santos: Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, além dos filhos do compositor de Caymmi, Nana, Dori e Danilo, que interpretam 15 clássicos do baiano alternadamente.

A grande pérola de colecionador, contudo, está logo na abertura do disco, com “O que É que A Baiana Tem?” cantada por Caetano, Chico e Gil juntos, em um clima bossa nova que traz à tona um encontro musical raro, registrado pela última vez há 22 anos, na gravação da música “Blusette”, para o disco “The Brasil Project” (1992), do gaitista belga Toots Thielemans.

Separados, cada um do trio interpreta duas canções que parecem cair melhor ao estilo individual deles. Enquanto Caetano amplifica os sambas solares “Sábado em Copacabana” (1951) e a “Saudade da Bahia” (1957), Gil aquece mais os pandeiros em “Samba da Minha Terra” (1940) e “Rosa Morena” (1942). Já Chico submerge ao intimismo de piano e percussão, seguros por arranjos suaves de violoncelo, para interpretar “Dora” (1945) e “Marina” (1947).

Nas músicas interpretadas pelos filhos de Caymmi, acontece um verdadeiro passeio por uma obra tão familiar, como se Dori, Danilo e Nana soubessem exatamente como o pai gostaria de ouvi-los cantar suas canções. Além de belas interpretações individuais dos três, o maior destaque fica por conta de “Canção da Partida” (1957), que fecha o disco em tom literal de despedida, com a mensagem mais clássica de um cancioneiro que não sabia viver sem o mar, mesmo sem nunca ter aprendido a nadar: “Adeus, amor, por favor / Não se esqueça de mim / Vou rezar pra ter bom tempo, meu nêgo / Pra não ter tempo ruim”).

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