O momento chegou

iG Minas Gerais |

Nada está definido, existem, sim, tendências que estão se solidificando, mas a cada candidato se concedem ainda possibilidades de vitória. Nem tudo está perdido, nem tudo está ganho. Pode-se prever que não cairá outro avião, até porque estatisticamente o de Eduardo Campos representa uma extraordinária excepcionalidade, e mais excepcional seria repetir-se em poucos dias o que não aconteceu em 20 anos de uso desse modelo da Cessna. Há quem insista na necessidade de uma explicação melhor sobre a surpreendente queda da aeronave mais segura da aviação executiva mundial. Explicação que parece não importar muito depois do sepultamento de Eduardo Campos. Faltam quatro semanas, 28 dias, para decidir quem passará ao segundo turno. A cada dia, fica mais árdua uma mudança radical de tendência. O que sobra de tempo, como lembrou um marqueteiro argentino, é essencialmente para intensificar a “porradaria”. Quer dizer, a desconstrução dos adversários, removendo-os do caminho. Em outras palavras: “demonização” para fins eleitorais. O caso mais claro de demolição da semana, que viu convergirem os oponentes, é de desconstrução de Marina Silva, a nova líder das intenções de voto. A investigação sobre a queda do avião, inicialmente defendida pelos líderes do PSB, que ainda está por ser explicada, levou ao contrário do esperado, autoridades coatoras da elucidação do caso à procura da origem dos recursos que pagavam o afretamento da aeronave. Paradoxalmente, na crucificação, o principal assunto passou a ser quem fabricou os pregos, não a crucificação em primeiro lugar e como se determinou. A quem interessa a origem dos pregos? Nenhuma autoridade questiona a análise dos restos de tecidos pulmonares encontrados e que poderiam dar resposta à tese de uma explosão a bordo antes do descontrole ocorrido. A presença de substâncias impróprias no ar respirado estaria nos tecidos das vias respiratórias. Pulmão e até tórax inteiro de ocupante foram recolhidos em Santos. Foram conservadas amostragens desses tecidos? Foi realizada análise ou autópsia? Onde se encontram os resultados? Quais preocupações tomaram os peritos criminalistas do caso? Ninguém cobra isso, mas alguém cobra a origem dos recursos do fretamento. Desperta perplexidade, ainda, a falta da gravação dos diálogos a bordo. Inexplicável, também, uma matéria veiculada na mídia que mostra um técnico explicando como o piloto poderia ter desligado o gravador de voz, puxando um elemento do quadro de fusíveis. Na realidade, o fusível não é um dispositivo de acionamento, mas de proteção, identificável apenas por um técnico aeronáutico durante manutenção de inspeção, dispondo de manual nas mãos. Nenhum piloto brincaria no quadro de fusíveis antes de um voo. Geraram-se perplexidades inquietantes que reforçam a necessidade de uma explicação séria. Marina subindo para a liderança virou alvo de apedrejamento. Esperado. Sempre o líder de intenções de voto recebe ataques atendendo a regra de que “não se gasta chumbo com defunto”. Resistirá? Terá como passar pelo bombardeio? As propostas reais dos candidatos são poucas, e algumas, patéticas, saindo de quem por 12 anos de prática contumaz contrária se propõe a mudar de rumo apenas agora quando a popularidade entra em queda. O eleitor neste momento não distingue as propostas que foram homogeneizadas atendendo o anseio relevado pelas pesquisas de opinião. Saúde e segurança até enjoar, mas fica nas generalidades, pouco motivadoras para a massa de eleitores. Questões que corroem o Brasil, como excesso de burocracia, tributos e corrupção, são tangenciadas, assim como o aparelhamento do Estado para fins partidários e de locupletação. Não está se discutindo que modelo de desenvolvimento do país se colocará em prática, um desenvolvimento que ficou refém de gavetas do sistema público/corrupto, cobrador de taxas e multas e de costas para o seu papel de apoiador e fomentador. Hoje, o cidadão se encontra na frente de um Estado geralmente tirânico, cínico na hora de apoiar e cruel em cobrar impostos. O sistema que vampiriza sobreviverá. As brechas para o desfrute do poder, como revela o depoimento premiado do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, continuarão como espada de carrasco sobre a nação. Tem proposta para desbaratar esse filão? Dilma evidentemente terá muita dificuldade em convencer agentes que operam na economia competitiva. Enfureceu o agronegócio, a indústria de bens de capital, os setores como o sucroenergético, que com ela chegou à beira da desintegração. Nisso o PSDB ficou assistindo sem uma posição visível e identificada como contrária. Dilma continua soberana nos redutos que dependem de “bolsas”, mas não é apenas de bolsas que se sustenta uma nação. Gera também estarrecimento constatar que no momento em que deveria estar no ápice do seu desempenho, coincidindo com o ano da reeleição – assim como antes dela conseguiram FHC em 1994 e Lula em 2006 –, está exatamente no fundo do poço. Gastou chumbo mal e antes da hora, isso a descredencia para tarefas futuras. Assim, as cotações da Bolsa reagem inversamente proporcional à expectativa de ela permanecer no governo. Aécio, muito bem cotado entre as camadas mais altas da sociedade, peca no uso de um vocabulário e de gestos que ficam abstrusos aos ouvidos das classes C e D. Marina, ao contrário, encontra nessas classes uma “floresta conhecida”. No xadrez da eleição, os erros se pagam, mais do que as virtudes podem ser reconhecidas. Em Minas, campo de batalha principal, segundo o resultado Ibope da semana, Pimenta da Veiga melhorou sua performance, apesar de uma notável migração de eleitores de Aécio para Marina. Teria assim, pela primeira vez desde julho, crescido mais que Pimentel, encurtando a distância e reacendendo o sonho tucano de “virada”. As próximas duas semanas, do dia 8 até o dia 22, serão decisivas para confirmar as tendências, quem embalar no meio de setembro levará a melhor no primeiro turno. O momento em que as “flores” se transformam em frutos chegou.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave