Bela artesã da persistência

Regina Pessoa - animadora e cineasta portuguesa

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

“Nunca tive paixão por animação e nem tinha TV em casa quando era criança. Mas ela me permite fazer o que eu amo, que é desenhar”
Anima Mundi
“Nunca tive paixão por animação e nem tinha TV em casa quando era criança. Mas ela me permite fazer o que eu amo, que é desenhar”

Formada em Belas Artes, a animadora portuguesa Regina Pessoa veio a Belo Horizonte na última sexta-feira para uma master class dentro da programação do Anima Mundi. Diretora de três curtas, ela explica abaixo como a animação foi um acaso em sua vida, além da técnica de gravura que ela desenvolveu para cada produção, os desafios do computador e o estado da animação em Portugal

Me conta um pouco da sua história e de onde vem seu interesse por animação. Sempre gostei de desenhar, era esse sempre o meu sonho. Então, na hora de entrar na faculdade, saí da minha aldeia em Portugal e fui estudar belas artes na Universidade do Porto. Era um curso muito caro, e minha família é de origem humilde. Por isso, eu precisei encontrar trabalhos paralelos para pagar os meus estudos. Num deles, conheci pessoas que trabalhavam com animação em um estúdio no Porto, estavam começando uma nova produção, gostaram dos meus desenhos e me convidaram. Passei a trabalhar durante o dia e fazer o curso à noite. Não foi uma opção minha. Nunca tive paixão por animação e nem tinha TV em casa quando era criança. Mas ela apareceu na minha vida e me permite fazer o que eu amo, que é desenhar. Cada imagem, cada quadro, é uma pintura para mim, e animação é pôr essas imagens em movimento. E como você começou a desenvolver seus próprios trabalhos?

Depois de dois anos, o estúdio achou que devia promover uma formação para o pessoal que trabalhava lá porque não havia cursos de animação em Portugal. Foram cinco meses na França e cinco em Portugal para passar por todos os estágios da produção de um filme. Começando pelo roteiro, que foi quando tivemos mais dificuldade porque nossa formação era visual, gráfica, e não tínhamos experiência em como contar uma história. Minhas primeiras tentativas foram bastante bloqueadas e eu estava muito aflita, foi quando o Abi Feijó, dono do estúdio, disse: “Não se preocupe com uma estrutura rígida, pense apenas em algo que tenha te emocionado e que foi importante para ti e, de alguma forma, as pessoas vão sentir essa força nas tuas imagens”. Daí, lembrei da minha infância de quando tinha medo do escuro, o que criava imagens fortes e não precisava muito de uma história. Esse foi o começo do meu primeiro curta, que se chama “A Noite”. Seu trabalho tem relação com a técnica de um animador polonês. Explique como isso aconteceu.

Quando terminei a pesquisa de ambiência, personagens e os storyboards para “A Noite”, usei determinadas cores e texturas que criaram um visual bastante forte. E acabou lembrando os filmes de um realizador polonês chamado Piotr Dumala. Ele fez vários trabalhos com uma técnica de gravura sobre gesso nos anos 90, que eu tinha visto em um festival no Porto e me impressionaram bastante. Mas, naquela época, não era como hoje, que é fácil ter acesso à internet e contatar a pessoa, ou descobrir sites que explicavam a técnica. Então, fiz minha própria pesquisa e algumas tentativas com tintas diferentes, até que cheguei a um resultado que me satisfez. E o estúdio onde eu trabalhava encorajou-me a fazer o curta nessa técnica. Se fosse noutro estúdio, não tinham deixado porque é uma técnica demorada. Levou três anos para ficar pronto. Mais tarde, encontrei o Piotr e ele ficou muito sensibilizado. Talvez um dia trabalhemos juntos. E essa é a técnica que você utiliza até hoje?

Não. Porque a recepção de “A Noite” foi muito boa em festivais, boas críticas, e me encorajou a fazer outro. Mas depois da experiência que tive com placas de gesso, não queria voltar a fazer essa técnica. Porque é muito longa, trabalhosa e não pode ser partilhada com uma equipe. Tem que ser num quarto escuro, com a luz iluminando só as placas, um trabalho solitário, e eu não queria voltar a passar dois anos ali. Mas, das gravuras, da luz e da textura, eu gostei muito, e queria utilizar isso. Então, desenvolvi outra técnica de gravura, desta vez em papel, que tinha a vantagem de não ser tão pesada, e eu podia partilhar o trabalho com uma equipe. Xerocávamos cada desenho de animação em um papel cartaz, cobríamos com tinta preta e, com o traço da animação, dava para fazer a gravura. Foi assim que fiz meu segundo filme, “História Trágica com Final Feliz”. E como você levou essa técnica para o universo digital?

O “História” fez muito sucesso, mais de 50 prêmios, mas quando comecei meu projeto seguinte, “Kali, o Pequeno Vampiro”, meus produtores disseram que eu não ia poder usar gravura feita à mão porque era muito dispendioso. Apesar de muito rico, há softwares e equipamentos que permitem fazer o mesmo tipo de visual usando o computador. E essa imposição foi difícil porque minha formação é clássica e eu nunca tinha usado o computador, a não ser para escanear desenho. Comecei a experimentar vários softwares, até usar uma versão do Photoshop que me deu um click na cabeça de como usar as ferramentas num processo muito parecido com trabalhar a mão. A partir daí, tudo ficou muito fluído. No fundo, aprendi que qualquer suporte, seja gesso, papel ou computador, é apenas uma ferramenta. É a linguagem de cada um que vai dar a ela uma expressão diferente. Como na cozinha, os ingredientes são sempre os mesmos – ovos, farinha, manteiga –, e cada pessoa faz algo novo. Os portugueses têm muito medo do computador, como um botão que gera um resultado massificado. Mas não tem que ser assim. Ele é apenas uma ferramenta que deve ser colocada a nossa serviço, e não nos tornar preguiçosos. Como é trabalhar com animação em Portugal? Existem recursos e incentivo para a produção?

Dois anos antes de entrar no estúdio, em 1992, o Instituto Português para o Cinema, órgão do governo, tinha começado a apoiar a animação. Antes disso, havia incentivo para o cinema, mas não para a animação. E é quando a área começa a se desenvolver em Portugal. Claro que foi gradual e, no início, foi graças ao entusiasmo de Abi Feijó, que já trabalhava antes do apoio, e é um grande apaixonado pela animação. O curta dele, “Os Salteadores”, foi muito importante, não só por causa da riqueza técnica e dos bons resultados, mas pela temática que aborda nossa história durante a ditadura de Salazar. E marca o início da animação em Portugal. Foi nele que trabalhei quando comecei no estúdio. Hoje, já há cursos de animação e bons profissionais. Toda a parte digital de “Kali, o Pequeno Vampiro” foi feita em Portugal. Mas há um problema porque não há uma indústria de animação comercial que absorva os formados nas universidades. Produção de conteúdo infantil é uma das grandes indústrias mundiais, mas Portugal ainda não entendeu isso. Quais são os animadores trabalhando hoje que te inspiram?

Abi Feijó, meu colega, companheiro e grande ser humano. E quando começo um novo projeto, decoro a parede na frente da minha mesa com imagens de animação. Quem sempre aparece ali é a Amanda Forbes e a Wendy Tilby. Tem um filme inglês de que eu gosto muito, “The Man with the Beautiful Eyes”. Outro inglês bom é o Marc Baker. Um russo chamado Igor Kovalyov. E dois jovens realizadores chilenos, Niles e Joaquin Cocina, me impressionaram muito com o primeiro curta deles, “Lucia, Luis y el Lobo”. Para você, qual a característica, ou a qualidade, indispensável a um bom animador?

Tenho pensado muito nisso. Ao contrário do que se pensa, não é talento. Porque há muitas pessoas mais talentosas que eu, e não despontaram. Acho que a qualidade que o animador deve ter é a persistência. Animação é algo muito duro, são milhares de desenhos. É preciso fazer 24 imagens por segundo de filme. Imagina seis personagens 24 vezes por segundo. É muito trabalho. Se for muito talentoso, mas não tiver essa resiliência, não vai funcionar. 

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