A tragédia da mobilidade urbana no Brasil - final

iG Minas Gerais |

Mobilidade urbana é apenas um dos N problemas que precisamos resolver com urgência urgentíssima
Intervenção sobre desenhos vetoriais do livro “A cidade das estrelas”
Mobilidade urbana é apenas um dos N problemas que precisamos resolver com urgência urgentíssima

Você tem 20 anos, mora em Venda Nova e trabalha no centro de BH. Pula da cama às cinco e meia, toma um banho rápido e se veste depressa. Bebe uma xícara de café com leite e mastiga um pãozinho com margarina. Cumprida a rotina básica, sai em busca da condução, que demora ou não demora, está cheia ou vazia, tanto faz, porque você precisa chegar às oito, e até lá são duas horas de sacolejo e empurrões. De oito ao meio-dia você trabalha em pé ou se movimentando de um lado para o outro. Sai para almoçar num buteco a quilo ali perto, pagando com vale-refeição. De volta ao batente, faz mais do mesmo até tantas da tarde, quando tem 15 minutos para o lanche. De volta, bastante mais do mesmo novamente até terminar o dia e você retomar o caminho de casa, da mesma maneira que veio. Quantas maratonas dessas, cinco vezes por semana, durante 30 ou 35 anos? Só Deus sabe. Mas você não aguenta esse tempo todo. Ninguém aguenta. A CIDADE DAS ESTRELAS “A solução era tão genial quanto simples. Sim, era só fazer isso: metade dos moradores da Zona Sul iria morar na Zona Norte. Metade dos moradores da Zona Norte passaria a morar na Zona Sul. Metade dos que trabalhavam na Zona Sul trabalharia na Zona Norte. E metade dos que trabalhavam na Zona Norte trabalharia na Zona Sul. Além disso, metade dos que estudavam na Zona sul estudaria na Zona Norte. E vice-versa, e assim por diante.” “Facílimo! Problema resolvido! E a garotada foi tomar sorvete para comemorar, deixando o resto da discussão para o dia seguinte. Pois havia um pequeno problema não resolvido.” PROBLEMÃO. OU NÃO. “No dia seguinte, foram chegando ressabiados, cada um mais atrasado que o outro. Até que o garoto disse claramente qual era o problema, e disse com uma pergunta. Uma pergunta simples, uma só: Como vamos convencer quem mora num apartamento de cobertura na Zona Sul a ir morar num barraco de favela da Zona Norte? Todos concordaram que era difícil. Difícil só, não: impossível. Mais fácil seria mudar as estrelas! Entusiasmado, o mesmo garoto gritou, dando um pulo: – É isso! Se a gente não pode fazer as pessoas mudarem de um bairro para outro, pode tentar com as estrelas. As estrelas não moram em apartamentos e mansões. Elas não têm carro nem estudam em colégios caros. Quem já viu uma estrela doutora? Ou uma estrela com dor de dente? É isso! Vamos mudar as estrelas.” TRAGÉDIA URBANA Volto ao ensaio “Mobilidade urbana”, de Luiz Flávio Autran Monteiro Gomes (Ciência Hoje, agosto 2014): “A situação é particularmente trágica nas cidades brasileiras, onde já se tornou, há algum tempo, questão de vida ou morte. O estresse urbano aumentou de maneira considerável, ambulâncias com doentes demoram a chegar a hospitais ou à unidade de tratamento médico, viaturas de corpos de bombeiros demoram a chegar para combater incêndios, a produtividade dos trabalhadores cai devido aos atrasos e ao cansaço pelo tempo gasto nos deslocamentos, as pessoas dormem muito menos do que o normal por conta dessa demora etc. Por essas e outras consequências, a crescente inércia na mobilidade urbana é uma causa básica da baixa qualidade de vida do cidadão brasileiro, seja qual for a faixa de renda – embora, indiscutivelmente, afete muito mais as camadas de renda mais baixa.” A ETERNA UTOPIA “Uma explicação para essa falta de compromisso da maioria dos administradores públicos brasileiros está na forma de colonização do Brasil, diferentemente do que ocorreu em outras nações, como afirmou em 1961 o sociólogo Alberto Guerreiro Ramos (1915-1982): enquanto nessas nações se fortaleceram os vínculos entre os políticos e as comunidades locais, aqui a vasta maioria da classe política usou o poder para perpetuar-se na posse desse mesmo poder. A melhor forma de consertar as coisas seria o aumento expressivo do nível educacional da população em geral, o que exigiria o aumento da responsabilidade política dos governantes.” “Quando todo cidadão brasileiro souber ler e escrever, estiver totalmente informado sobre seus deveres e direitos – e os de seus governantes – e exercer plenamente sua cidadania, então a questão da mobilidade urbana poderá caminhar rumo a uma solução sustentável.” SERÁ MESMO? Todo dia, todo santo dia, durante 10, 20 ou 30 anos, você sai de casa no subúrbio distante e vai trabalhar. Come o pão que o diabo amassou. Nesse meio tempo, com raras exceções, você melhora de vida e compra um carro, o que não ajuda muito sua mobilidade. Na maioria dos casos, você passa a morar com alguém – e os problemas duplicam, ou se multiplicam X vezes, se nascem filhos. Vivemos num país pobre. 80% do congresso, do judiciário e dos ricos preferem que tudo fique como está. Reformas políticas – de qualquer tipo – nunca avançam, não saem do papel, são engavetadas, travam as pautas. DIVINO, MARAVILHOSO Não sou um Catão. Longe de mim exigir que a maioria das pessoas esqueça o egoísmo. A função dos seres vivos é essa mesmo: devorar uns aos outros. Essa lei vale para as amebas e para nós. Mas um pouco mais de educação, um pouco mais de cultura, um pouco mais de ética e de altruísmo – quem sabe poderiam ajudar?

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