Em meio a grandes comércios, pequeno armazém sobrevive no Aparecida

Loja foi aberta em 1971 e vende quase de tudo e a dívida dos clientes é anotada em cadernetas; o dono do estabelecimento Zé Totó é conhecido por todos da região

iG Minas Gerais | Natália Oliveira |

ECONOMIA - ZE TOTO É PROPRIETARIO DA QUARTA LOJA MAIS ANTIGA DE BELO HORIZONTE. A
JAQUES DIOGO / O TEMPO 22.08.201
ECONOMIA - ZE TOTO É PROPRIETARIO DA QUARTA LOJA MAIS ANTIGA DE BELO HORIZONTE. A "VENDA" FICA NO BAIRRO APARECIDA EM BELO HORIZONTE FOTO: JAQUES DIOGO / O TEMPO 22.08.2014

De comida a material de costura, um armazém vende quase de tudo. A simpatia é de graça. Pelo menos é assim no pequeno armazém de José Alves dos Santos, 84, o Zé Totó, como é conhecido, no bairro Aparecida, região Noroeste de Belo Horizonte. Um dos comércios mais antigos de Belo Horizonte, a loja funciona há 71 anos na mesma esquina, na rua Aporé. Mesmo com os grandes supermercados, o lugar ainda sobrevive e mantêm as características das antigas “vendas”, como eram chamados antigamente os comércios que vendiam uma grande variedade de produtos. As mercadorias são tantas que muitas delas precisam ficar, literalmente, dependuradas no teto e as compras dos clientes ainda são anotadas em cadernetas.

Tudo começou em 1943, quando o pai de Zé Totó, abriu a loja. Na época, o hoje idoso, tinha 13 anos e começou a trabalhar no comércio. Desde então, as portas da venda são abertas de segunda a segunda às 8h da manhã e só fecham às 21h15. Além de funcionar nos domingos, ele também abre nos feriados. Até mesmo no Natal e no Ano Novo, é possível comprar no local. Aliás, como Zezé Totó é religioso, o único dia que não abre é na Sexta-Feira da Paixão, quando ele se reúne com a família. Mesmo assim, ele mesmo conta que fica inquieto em casa e olhando para a rua e acompanhando o movimento.

“Muita gente passa o dia aqui na loja, nós já nos tornamos uma família. Eu gosto de estar sempre aberto porque as pessoas podem precisar de alguma coisa de última hora para o chuveiro, por exemplo, e elas precisam ter aonde comprar. Tem também os alimentos que podem ser necessários com urgência. Esse é meu serviço, servir a quem precisa”, justifica o comerciante. Durante todo o dia, o armazém fica cheio de clientes. Tem quem fique por lá bebendo cerveja na única mesa da venda ou até mesmo no balcão e também quem vá ao local para comprar os mais diversos produtos.

Sempre sorrindo e contando histórias, é o carisma e o carinho de Zé Totó que cativa os moradores do bairro e da região, onde ele é conhecido por todos. Baixinho, com os óculos caídos no rosto, os cabelos já brancos e seu boné, Zé Totó esbanja simpatia e um grande coração, já que gosta muito de ajudar as pessoas. “Eu puxei o bom coração da minha mãe. Às vezes eu compro almoço para algumas pessoas que ficam aqui na venda, porque eu sei que elas precisam”, conta. Ao longo do dia, várias pessoas passam pelo armazém apenas para cumprimentá-lo. Ele também é convidado por políticos a tirarem fotos com eles para divulgação de campanhas eleitorais.

Confira o vídeo no com Zé Totó:

Na venda, não importa a classe social ou idade, todos são tratados com o mesmo carinho pelo idoso. Lá, a única diferença é na hora de fazer o pagamento, já que as mulheres devem pagar de um lado do balcão e os homens do outro. “Sempre foi assim, eu acho melhor para os clientes e também mais fácil para mim”, revela Zé Totó. Na lojinha ele mantém também o hábito de fazer as vendas em cadernetas. Para cada cliente, há um pequeno caderninho, onde ele anota tudo que é comprado e quando o cliente paga, o comerciante destaca a folha e entrega para ele como forma de comprovar o pagamento. À moda antiga ele também não aceita que o pagamento seja feito por cartão seja de crédito ou débito.

“Infelizmente a maioria das pessoas não paga e eu já perdi muito dinheiro. Eu vendo fiado para ajudar alguns clientes, mas seria ótimo se todos pagassem”, brinca. A loja também ainda mantém as antigas prateleiras de madeira com vidro e algumas caixas que guardam produtos como meia-calça, agulha para costura, linhas e outros produtos. Apesar de pequena, a loja tem uma variedade imensa de produtos, maior que de muitas outras grandes redes comerciais. Dentre as variadas mercadorias estão a venda de pinico para crianças, lamparinas, essências, velas e antenas parabólicas. “Aqui quem procura encontra”, diverte-se. Aliás se um cliente procura alguma coisa e não encontra na loja, o comerciante anota o produto que falta para comprar depois e colocar a venda. Mesmo sem nenhuma placa, o armazém é conhecido por todos na região e faz sucesso entre os clientes.

Além de ser sua grande paixão, foi com o armazém que Zé Totó conseguiu sustentar a família, criou os seis filhos e formou todos eles na faculdade. Também sustentou sua mulher, já falecida, e de quem ele sempre fala com muito carinho. “Tenho muito orgulho de ter conseguido estudar os meus filhos por meio da venda e te der ajudado a minha esposa, que foi melhor do que ter ganhado na loteria. Eu também já ajudei alguns dos meus 13 netos que precisaram de mim”, orgulha-se. Foi também para sustentar a família que o pai de Zé Totó abriu o comércio. O comerciante fala do pai com orgulho e gratidão. Ele conta que o seguia nos tempos em que o pai era tropeiro – homens que saíam a cavalo comprando e vendendo mercadorias.

“Foi assim que a história da venda começou, eu ajudava meu pai na época dos cavalos. Nos morávamos em Vespasiano (na região metropolitana da capital) e vínhamos para Belo Horizonte para vender e comprar os produtos. Foi com esse trabalho que meu pai conseguiu comprar vários imóveis, inclusive essa venda. Nós também tínhamos várias hortas e ele me ensinou a cuidar dos animais. Ele me confiou a loja pouco antes de morrer, em 1952. Essa venda faz parte da minha vida e da minha história. Eu gosto muito daqui e me sinto bem com esse trabalho”, conclui. Atualmente, como já está idoso, ele recebe a ajuda dos filhos para administrar o comércio.

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