Reflexos da espiral do tempo

“O Futuro Avança para Trás”, de João Castilho, e “Gravura”, de Alessandro Lima, abrem hoje na Celma de Albuquerque

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Obra.  Em “Vortex”, João Castilho retrata o desenho de uma espiral produzida com tijolos fabricados no Norte de Minas Gerais
Joao Castilho
Obra. Em “Vortex”, João Castilho retrata o desenho de uma espiral produzida com tijolos fabricados no Norte de Minas Gerais

Dentre as mostras já realizadas por João Castilho, ele aponta “O Futuro Avança para Trás”, como a mais marcada pela noção de tempo. A temática permeia, assim, sete novas obras exibidas a partir de hoje na galeria Celma de Albuquerque. São elas, “Zoo”, “Intervalo”, “Pintura”, “Vortex”, “Irreversíveis”, “O Futuro Avança para Trás” e “Progresso”, nas quais ele transita pela fotografia, pelo vídeo, e estreia agora na escultura.

“Essa ideia que está presente no título é uma referência ao texto do norte-americano Robert Smithson. Na mostra, ela alcança diversas camadas. Há desde criações que, a partir desse olhar, permitem leituras mais políticas até outras que dialogam com questões mais comportamentais em relação ao homem. Algumas miram meu próprio processo criativo, uma vez que em algumas obras, como ‘Intervalo’ e ‘Irreversíveis’, eu tomo como ponto de partida trabalhos anteriores”, explica João Castilho.

A busca por paralelos com o passado, para o artista, possibilita trazer à tona aspectos sociais que merecem reflexão. É o caso, por exemplo, do vídeo “Progresso”. Neste, ele filma o engessamento de um jovem, que passa por um processo de embranquecimento. Castilho ressalta que a ação serve como uma metáfora da imobilidade dessa parcela da população, especialmente a negra.

“Como a sociedade lida com um trauma histórico como a escravidão é o que esse vídeo de alguma maneira permite discutir. Ali, os ideais de progresso e justiça racial no Brasil são questionados. Pensar isso faz muito sentido, especialmente quando dois casos relacionados ao racismo tem ganhado repercussão neste momento na mídia”, diz Castilho, que faz alusão aos episódios envolvendo o goleiro do Grêmio, Aranha, e uma jovem negra de Muriaé.

Ancestralidade. Ao fotografar animais silvestres em ambientes domésticos na série “Zoo”, o fotógrafo afirma que contempla outro aspecto de seu interesse: a relação do homem com os animais. “As imagens se voltam a um primitivismo que talvez nós mesmos desconhecemos. Quando eu retrato, por exemplo, um tamanduá sobre uma cama é provocado um estranhamento que visa refletir sobre a condição dos animais e de nós mesmos”, diz.

Já na escultura “O Futuro Avança para Trás”, Castilho encontra um resumo de suas inquietações. “Essa é uma espécie de árvore com mais de 80 espelhos retrovisores. O tempo e a implosão da visão clássica são perspectivas ali tratadas que tocam outras obras também”, conclui.

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