Festim angelical

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“Não somos um país de gastronomia, somos um continente de gastronomia e levamos para Tiradentes um Brasil que a maioria de nós não conhece”
Guilherme Gazzinelli/divulgação
“Não somos um país de gastronomia, somos um continente de gastronomia e levamos para Tiradentes um Brasil que a maioria de nós não conhece”

Rodrigo “Albanos” Ferraz, com mais uma edição, a 17ª, de seu consagrado Festival Cultura e Gastronomia Tiradentes, provou que os três pratos favoritos dos mineiros não são, pela ordem, pão de queijo, pão de queijo e pão de queijo. Mineiros e turistas puderam ir, até o último fim de semana, muito além deste jardim, com sabores gerais e internacionais. Bom apetite!

O Festival Cultura e Gastronomia Tiradentes, que chegou à 17ª edição, é responsável – como modelo e vitrine – pelo efeito cascata na gastronomia, dada a proliferação de chefs, cursos e festivais gastrô em BH e interior de Minas?

Acho que temos uma grande importância para o setor por sermos pioneiros, por termos trazido para Minas Gerais mais de 600 chefs do Brasil e do mundo, e 5.500 profissionais da gastronomia. Ajudamos também a cidade a se transformar em referência gastronômica no Brasil. Tiradentes ocupa o quinto lugar em número de restaurantes estrelados pelo “Guia 4 Rodas” e é um exemplo do que a gastronomia pode fazer por uma cidade, para um estado e até para um país. Mas existem outros grandes trabalhos e iniciativas em Minas Gerais, como o trabalho educacional do Senac; vários outros eventos no interior, como o Festival de Gastronomia de Araxá, o Comida di Buteco; boas associações, como a Abrasel; e o belo incentivo à gastronomia realizado pelo Governo do Estado de Minas Gerais.

O festival começou trazendo chefs internacionais e agora mira nas cozinhas regionais do Brasil, apresentando o resultado da Expedição Fartura Gastronomia, que rodou o país para mapear nossas cadeias produtivas. É a hora e a vez do Brasil também na cozinha?

Sim. O evento tinha a característica de investir em atrações como chefs “Michelin” e chefs ranqueados no “Fifty Best”. Além de isso ter limites, em função de custos e quantidade de atrações, o chef vem e volta ao seu país, deixando muito pouco no Brasil. Mudamos o rumo e resolvemos investir em educação e cultura gastronômica brasileira. Para isso já percorremos 48 mil quilômetros em 17 estados, pesquisando esta riqueza e fartura gastronômica. Não somos um país de gastronomia, somos um continente de gastronomia e levamos para Tiradentes e para o público mineiro todo este conteúdo. Um Brasil que a maioria dos brasileiros não conhece. Se não dermos valor para nós mesmos, quem vai dar?

 

Conte-nos um pouco sobre o livro e o DVD que resultaram desta expedição.

Para aumentar esta educação e cultura gastronômica dos brasileiros, estamos investindo também na comunicação destas viagens. Já temos um livro, premiado em segundo lugar pelo “Gourmand Awards”, o “Oscar” da literatura gastronômica, no qual derrotamos 86 países e perdemos somente para um guia de Paris. Vamos lançar agora, em setembro, o segundo volume do livro, mostrando mais quatro estados do Brasil e Distrito Federal; um curta-metragem e estrear também um programa de rádio diário, na Alvorada FM.

Pelo seu contato com turistas e chefs estrangeiros durante os festivais, como eles avaliam hoje a gastronomia brasileira, sobretudo a mineira?

É promissora e cada vez avançamos mais, apesar de ser a passos lentos. Alex Atala e seu trabalho são referência mundial, Helena Rizzo foi eleita a melhor chef mulher do mundo e, na questão de produtos, somos tão ricos e fartos que temos até dificuldade que estrangeiro compreenda. É difícil explicar que um mesmo país seja rico e farto em frutas no Nordeste, café no Sudeste, soja no Centro-Oeste, açaí no Norte e uvas no Sul. Somos, literalmente, um país abençoado por Deus e bonito por natureza, mas poderíamos explorar melhor esse potencial.

 

Gastronomia é moda?

Gastronomia não é moda. Todos dependemos de alimento para sobreviver. Citando Michael Pollan, autor do livro “Em Defesa da Comida”, que bateu recorde de permanência na lista de mais vendidos do “New York Times”; comemos pelas mais diversas razões: saúde e sobrevivência, prazer, convívio com os amigos, rituais familiares ou religiosos. Talvez seja a atividade mais comum a todos os seres humanos. O que está acontecendo é que estamos percebendo a importância da gastronomia do ponto de vista econômico, cultural e até individual. Tem uma frase que diz: somos o que comemos.

O turismo também ganha com a difusão de nossa culinária?

Ganha muito, Tiradentes é um grande exemplo. O PIB da cidade cresceu 300% nos últimos dez anos e 50% disso vêm do setor de restaurantes, hotéis e bares. A Espanha, a França, a Dinamarca (pelo fato do Noma ter sido eleito o restaurante numero um do mundo, pelo “Fifty Best”), e, recentemente, o Peru (melhor destino gastronômico do mundo) registraram expressivos aumentos no fluxo de turismo. Minas Gerais já é privilegiada. Uma pesquisa feita pela Setur mostrou que, quando o turista vem para o nosso estado, a primeira coisa em que ele pensa é em comida, a segunda é pão de queijo e a terceira são as igrejas.

 

Você também é dono de bar e restaurante – do Albanos, há 18 anos, e do Haus München, há 12 anos – em uma cidade que, apesar de considerada capital dos bares, há grande rotatividade de estabelecimentos (pelo menos sete casas conhecidas fecharam recentemente). Tem receita este sucesso?

O mercado nunca esteve tão difícil, mas graças a uma excelente equipe de trabalho e muita determinação estamos a este tempo todo no mercado. Apesar das dificuldades, nosso movimento é bom e são  vários os prêmios e conquistas. Acreditamos primeiro em nossos projetos e na nossa identidade. O dinheiro e o lucro são consequência.

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