Estacionamento proibido

iG Minas Gerais |

acir galvao
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"De repente vejo você na minha frente e até pararia de andar se não fosse estacionamento proibido” (Martha Medeiros) Na vida, são muitos os momentos em que somos obrigados a dizer “sim” quando queremos dizer “não”; que temos que comparecer a eventos sociais quando preferiríamos ficar em casa; que precisamos sorrir quando estamos chorando por dentro. Nessas ocasiões, geralmente tentamos enganar a nós mesmos, oferecendo-nos uma espécie de recompensa ou pensando que aquilo logo vai passar. No meu caso, costumo travar um diálogo interno comigo mesma mais ou menos assim: – Que preguiça. Queria muito ficar em casa em vez de ter que trabalhar. – Ah, boba, vai lá rapidinho. Com o dinheiro do trabalho você compra aqueles DVDs que viu ontem e depois pode assistir em casa em vários outros dias... – Tem razão, na volta eu até já passo no shopping! Ou: – Não, não, não… não vou sair da cama, quero que o mundo se acabe hoje para eu não ter que levantar nunca mais na vida. – É, mas, se ele acabar, não vai ter mais dezembro, e você não vai poder viajar de férias… Levanta logo, faça depressa o que tem que fazer para o tempo passar mais rápido. – Será que a mala que eu mandei arrumar já ficou pronta? Ela precisa estar prontinha até o fim do ano! Porém, outro dia pensei que por muitas vezes enfrentamos situações opostas, em que o autossuborno não funciona tanto assim… Bem mais difícil do que ter que fazer algo sem querer é querer ter uma reação sem poder. Seria muito simples se, ao nos depararmos com uma coisa desejada, pudéssemos sair conformados da conversa com a nossa consciência, que sempre nos diz: “Ah, esquece, você tem tantas outras opções, olha aqui bem debaixo do seu nariz que maravilha, deixa aquilo lá pra outra pessoa…” Mas a vontade é implacável. Parece uma daquelas músicas que não saem da cabeça da gente, e, quando nem estamos lembrando, percebemos que ela continua batucando na mesma tecla, nos lembrando que queremos de qualquer jeito aquilo lá, por mais que a placa sinalize que é proibido parar e estacionar. A saída não é das mais fáceis. Ou fazemos uma lavagem cerebral, buscamos uma força de vontade no fundo do nosso ser e deixamos pra lá, ou tentamos resolver a causa de não podermos adquirir o que desejamos. Na maioria das vezes, esse motivo é exatamente o obstáculo. Termos a tal coisa neutraliza imediatamente outra que já temos, e isso nos gera dúvida e confusão. Escolher a novidade ou o que já nos é familiar? Acho que essa questão nos assaltará por toda a vida, em diversos momentos. A solução eu não sei. Se alguém souber, por favor me avise. Ando com uma música que não sai da minha cabeça. E o tíquete do meu estacionamento já venceu faz tempo...

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