“A História da Eternidade” no Indie 2014

Grande vencedor do último Paulínia Film Festival será exibido na programação da mostra

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Show. Irandhir Santos e a força da cena de
Divulgação
Show. Irandhir Santos e a força da cena de "A História da Eternidade" que fascinou o público no festival de Paulínia

O cineasta pernambucano Camilo Cavalcante acredita que seu longa “A História da Eternidade” está na contramão de um momento muito cínico e cético do mundo contemporâneo. “As pessoas hoje vivem sonhos de consumo que elas podem comprar no shopping. O filme fala de um sonho utópico. E busca fazer o espectador experimentar isso sinestesicamente, seja pela arte, pela dor ou pelo amor, na agonia e na vivência dessas três mulheres”, analisa.

A descrição é perfeita, mas talvez Cavalcante esteja errado sobre a contramão. “A História da Eternidade” tem sua primeira exibição em Belo Horizonte hoje, às 21h20, no 14º Indie – Mostra de Cinema Mundial e, desde sua estreia como o longa latino mais bem votado pelo público no Festival de Rotterdam, e de ganhar os prêmios de melhor filme, diretor, ator e atriz no último Paulínia Film Festival, a produção só vem acumulando fãs e elogios.

O filme acompanha três histórias em um vilarejo “afastado em relação ao espaço e ao tempo” no meio do sertão pernambucano. Às vésperas de seu aniversário, a jovem Alfosina (a estreante Débora Ingrid) sonha em conhecer o mar, enquanto se divide entre a rigidez do pai alcoólatra (Cláudio Jaborandy) e a admiração pelo tio artista, João (Irandhir Santos). Ali perto, a velha Dona das Dores (Zezita Matos) recebe a visita do neto paulista (Maxwell dos Santos) e descobre mais sobre ele do que imagina. E por fim, Querência (Marcélia Cartaxo) sofre o luto da morte do filho pequeno, enquanto é cortejada pelo sanfoneiro cego Aderaldo (Leonardo França).

Esta terceira foi a trama do curta homônimo, realizado por Cavalcante em 2003, que deu origem ao longa-metragem. Desde então, foram cerca de dez anos em que o pernambucano desenvolveu o roteiro e lutou por financiamento, até finalmente ser aprovado no edital de baixo orçamento do Ministério da Cultura depois de ser rejeitado várias vezes. Para ele, todo esse tempo, mais a pré-produção e os ensaios na locação, em Santa Fé, a 60km de Petrolina, foram fundamentais para o resultado que se vê na tela. “Ter todo esse tempo foi o que permitiu conseguir o resultado poético, denso e a alma que o filme tem, em que se pode reconhecer o esforço e a participação de cada membro do elenco e da equipe”, afirma.

É exatamente essa alma, resultante da soma do apuro técnico e do trabalho do elenco, que dá vida nova a um dos temas mais batidos e explorados do cinema brasileiro: o sertão. “O sertão veiculado pela mídia acaba sendo muito estereotipado. E eu acho que ‘A História’ lida com arquétipos – pessoas e sentimentos universais. Para mim, o sertão representa um território da alma humana, onde as relações interpessoais acontecem de maneira mais honesta”, argumenta Cavalcante.

Desses amores brutos, não-lapidados, entre personagens assombrados por fantasmas e demônios internos que se manifestam no escuro da noite, quando a maior parte do filme acontece, surge um sertão gótico. Ele é construído pela belíssima fotografia de muitas sombras e luz de velas de Beto Martins, inspirada nas pinturas de Caravaggio, como se um romance medieval fosse transposto para o meio do Nordeste contemporâneo. “É um sertão de dentro pra fora. Não é uma luz estourada para estrangeiro entender aquele sol. É a retina de quem já conhece e não se impressiona com ele. O que é escuro fica escuro porque tudo parte dos personagens”, explica o diretor.

Ao mesmo tempo em que Cavalcante nega a luz estourada do Cinema Novo, ele admite que Glauber Rocha foi uma das influências presentes em sua mente durante a realização do longa. Além dele, o pernambucano cita como inspiração “os cinco K”: (Emir) Kusturica, (Abbas) Kiarostami, (Krzysztof) Kieslowski, (Akira) Kurosawa e (Stanley) Kubrick. “Nada que esteja aos pés desses grandes mestres, mas eles sempre iluminaram meu pensamento cinematográfico com uma forma de se contar uma história”, considera.

E quem duvida da ousadia do cineasta que cita esses nomes, vai ser convencido por uma cena com o personagem de Irandhir Santos, que parou o Paulínia Film Festival com palmas ininterruptas no meio da sessão. “Ela acontece com mais ou menos cinquenta minutos de filme. E até então, não existe nenhum movimento de câmera, só planos fixos. E eu queria que o impacto da música somado ao travelling, que começa lento e vai girando, transformasse aquele momento em uma epifania, em algo libertário. Foi uma cena muito pensada tecnicamente e a performance do Irandhir caiu como uma luva”, descreve o autor do feito.

A música em questão é “Fala”, dos Mutantes, e ela não está em má companhia. A trilha musical é o último trabalho assinado pelo grande Dominguinhos, e conta ainda com obras originais de um certo Zbigniew Preisner – ninguém menos que o compositor polonês parceiro de um dos “k”, Krzysztof Kieslowski. “A gente entrou em contato com o agente dele, mandou um primeiro corte do filme, ele gostou e topou fazer”, conta Cavalcante. Se Dominguinhos e um dos maiores compositores da história do cinema aprovaram o resultado, caro Cavalcante, provavelmente “A História da Eternidade” não está tão na contramão assim.

 

 

 

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