Conflitos entre homens e bonecos na cena teatral

iG Minas Gerais | gustavo rocha |


Coletivo tem cinco anos de vida e dois trabalhos em repertório
Marta Vidanes / Divulgacao
Coletivo tem cinco anos de vida e dois trabalhos em repertório

A arte contemporânea tem em sua essência uma profusão de elementos que dialogam para construir narrativas que se aproximem dos tempos vividos hoje. O teatro de bonecos não é exceção à regra. Ele também bebe de várias fontes na composição de seus espetáculos. A Cia. Pelmànec, da Espanha, traz em sua curta trajetória uma interface entre marionetes, bonecos e atores. Os espanhóis apresentam “Diagnóstico: Hamlet”, hoje, no Festival Internacional de Bonecos.

“Nos sentimos muito cômodos em cena, mostrando as tripas de nosso ofício. Além disso, nos sentimos bem enfrentando os bonecos, sem nos escondermos. Um boneco não deixa de ser a projeção de uma ideia que surge da mente humana. Isolá-lo e apresentá-lo sozinho não nos parece justo. Acompanhá-lo de seu manipulador e utilizar esse fato, o da manipulação, como motor do desenvolvimento dos conflitos nos parece muito rico”, comenta Miquel Gallardo, integrante da companhia.

Ainda assim, há uma preocupação, do coletivo, para que os espectadores possam “adentrar a história” contada por eles. “Mas também usamos o vídeo e uma música comovente para transportar o espectador para um mundo particular, um universo muito pessoal onde ocorrem coisas extraordinárias”.

Criada em 2009, a companhia tem apenas mais um espetáculo em repertório: “Don Juan. Memória Amarga de Mim”, que veio a Belo Horizonte, no FITB, de 2009. Embora sempre responda na primeira pessoa do plural, o coletivo tem uma curiosidade: é um “Bloco do Eu Sozinho”, um grupo de um homem só. “O único integrante fixo sou eu, apesar de sempre ter a companhia de profissionais excepcionais em meus projetos”, garante o “solitário” Gallardo. “Diagnóstico: Hamlet” é a continuação da pesquisa que se iniciou no trabalho anterior. “Nossos espetáculos têm sempre um denominador comum e é do máximo respeito à técnica utilizada. Nesse caso, a manipulação de bonecos”, pontua.

Gallardo afirma que seu trabalho surge de um desejo de afirmação artística sem fazer concessões. “A Pelmànec nasce da necessidade de me sentir totalmente livre na hora de escolher meu caminho criativo. Tanto na dramaturgia (Gallardo também escreve os textos), como na interpretação. Em 2011, estreamos ‘Diagnóstico: Hamlet’ com o desejo de aprofundar a técnica e contar novas histórias, sempre partindo da base de que quem sobe em um palco deve ter algo importante a dizer”.

Sobre o teatro de bonecos brasileiro, o artista cita os tradicionais grupos Giramundo, Sobrevento, Catibrum, mas diz não ter muito mais conhecimento. Ele também comenta o estereótipo “teatro de bonecos para crianças”. “A gente se move num mundo onde os clichês nos dão segurança. O boneco sempre foi usado como recurso educativo ou pedagógico pelo poder que tem de abstrair e liberar a mente da criança. Ao contrário das crianças, o adulto compreende melhor as metáforas, os segundos sentidos e as convenções que o teatro de bonecos e objetos nos propõem. Dessa forma, os adultos, paradoxalmente, aproveitamos em maior plenitude o teatro de bonecos do que as crianças”, diz o artista.

Mais do festival. Também hoje, “Tropeço”, se apresenta, às 19h, no CCBB. O espetáculo, dos paranaenses da Tato Criação Cênica, traz a solidão e pequenas ações rotineiras da velhice, num universo de sutileza e extravagância, por meio de uma técnica que usa as mãos como elemento expressivo.

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