Hamlet no divã

Peça, dos espanhóis da Cia. Pelmànec, coloca personagem de Shakespeare em embate com seu psiquiatra

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Trama. Trabalho tenta estabelecer um jogo no qual o ator não se esconde atrás da ideia de seu boneco
Marta Vidanes / Divulgacao
Trama. Trabalho tenta estabelecer um jogo no qual o ator não se esconde atrás da ideia de seu boneco

Hamlet, personagem máximo de Shakespeare e ícone do teatro ocidental, já foi visto e revisto, virado do avesso, adaptado, recortado em múltiplas possibilidades de se levar uma obra para a cena. Já rendeu filmes no cinema com Kenneth Branagh e Mel Gibson vivendo o príncipe dinamarquês e montagens marcantes nos palcos brasileiros, como o “Ensaio.Hamlet”, dirigida por Enrique Diaz, com a Cia. dos Atores.

Agora, Hamlet “sai” da nobreza dos palácios para entrar num consultório psiquiátrico, no espetáculo “Diagnóstico Hamlet”, da Cia. Pelmànec, da Espanha, que se apresenta hoje e amanhã, no CCBB, dentro da programação do Festival Internacional de Teatro de Bonecos.

“Queria falar sobre o que se passa na cabeça de uma pessoa que vive uma situação extrema. Este diálogo que temos com nós mesmos. Essa discussão em que uma parte de mim deve ceder a outra. Em que nos afeta tomar esse ou aquele caminho? É sempre a mesma parte que ganha as discussões? Para esse conflito pessoal, escolhi como companheiro de viagem Hamlet. E descobri que colocar o louco mais famoso da história do teatro em um consultório psiquiátrico enfrentando seu psiquiatra poderia refletir muito bem esse diálogo interior. A prisão, nesse caso, o consultório, pode ser uma lugar magnífico para fugir quando alguém sente a certeza de que seu entorno lhe é hostil”, assinala o espanhol Miquel Gallardo, autor do texto e ator que interpreta o psiquiatra de Max, que pensar ser Hamlet.

Gallardo divide a cena com o boneco que tem o tamanho de uma pessoa. Max cria e recria a ilusão de que o personagem de Shakespeare fale por ele e o liberte de suas angústias. “Escolhemos bonecos de tamanho natural com manipulação direta para desenvolver nossas tramas. Um ator em cena que divide espaço e seus conflitos com bonecos de seu tamanho, a quem lhe dá vida”, comenta Gallardo.

Assim como acontece em outros espetáculos da programação do FITB, como “Escola de Ventríloquos”, o jogo entre bonecos e manipulares/ atores se estabelece de modo a deixar o “quem manda em quem” de maneira mais fluída e, por vezes, até confusa. “Essa inter-relação de necessidade entre um e do outro, de vassalagem, é muito rica. O boneco é construído para ser controlado fisicamente, mas aqui nós damos a ele a possibilidade de ser quem diga, ou pelo menos tente, como quer ser manipulado. ‘Quem manipula quem?’ Perguntam os espectadores que veem o trabalho. É o manipulador que insufla vida ao boneco ou é o boneco que decide por ele”, indaga.

Atual? Shakespeare, como vários outros, é tido como um autor universal porque sobrevive ao tempo. E o que motiva uma montagem de “Hamlet” nos dias de hoje? “Hamlet nos fala de muitas coisas. Todas interessantes e atuais. A solidão do ser humano ao ter de enfrentar seus problemas, um jovem que se vê obrigado a tomar decisões importantes e que se sente só ao ver o mundo que se cai ao seu redor”, comenta Gallardo.

Ele acredita que a obra não deixará de seguir atual. “Enquanto não sejamos capazes de resolver essas questões e sigamos, dia após dia, batendo de cabeça contra a parede do medo e da dúvida, Hamlet seguirá vigente por muitos séculos que virão”.

Trilhar por caminhos menos ortodoxos para conceber a obra máxima de Shakespeare não parece assustar o espanhol, que vê na resposta e na interação do público o retorno mais importante para seu trabalho. “As pessoas querem que contemos uma história que elas sejam capazes de entender e desfrutar; se for possível aprender alguma coisa, ainda melhor”, diz.

A versão do Pelmànec, no entanto, garante o artista, não fere “os preceitos básicos” do original. “Não pretendemos criar uma nova versão da obra de Shakespeare, mas nos basearmos em alguns de seus personagens para contar uma história diferente, atual e original. Ainda somos muito fiéis na leitura do personagem Hamlet. Qualquer pessoa que o veja e conheça de antemão a obra, descobrirá que nosso Hamlet está muito mais próximo do personagem do Bardo (como Shakespeare costuma ser chamado), que a maioria das adaptações fiéis do texto”.

 

Programação

“Diagnóstico: Hamlet” Hoje, às 20h

Amanhã, às 19h.

Onde. CCBB (praça da Liberdade, s/nº, Funcionários).

Ingressos. R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)

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