Testemunha ocular do terror

Atentado completa nesta sexta 42 anos; ex-atleta do Minas lembra com tristeza o trágico episódio

iG Minas Gerais | DANIEL OTTONI |

Marcante. Luiz Eymard era jogador da seleção brasileira de vôlei e lembra de detalhes do atentado
BRUNO FIGUEIREDO / O TEMPO
Marcante. Luiz Eymard era jogador da seleção brasileira de vôlei e lembra de detalhes do atentado

Testemunhar um dos momentos mais marcantes dos Jogos Olímpicos é privilégio para poucos. O gerente de esportes do Minas Tênis Clube, Luiz Eymard, é uma dessas pessoas.

No entanto, sua presença nos Jogos de Munique, em 1972, tem como lembrança um fato desagradável, que insiste em não desaparecer de sua memória. No dia 5 de setembro daquele ano, Eymard presenciou, de perto, o atentado terrorista que aconteceu durante o evento, que resultou na morte de 18 pessoas.

O incidente, que ganhou o nome de Massacre de Munique, completa nesta sexta 42 anos e parece que não sairá tão cedo da memória do minastenista, que foi convocado para a seleção brasileira de vôlei pelos serviços prestados ao clube de Belo Horizonte.

SUSTO. Terroristas palestinos do grupo Setembro Negro invadiram a Vila Olímpica e se dirigiram para o dormitório israelense. A primeira medida foi assassinar dois integrantes e fazer nove reféns. Os palestinos queriam a libertação de 200 árabes que estavam presos em Israel. A ameaça era a de matar duas pessoas a cada hora.

“São lembranças muito tristes. Tomamos um susto grande quando fomos tomar café, pela manhã. Demorou até entendermos tudo que estava acontecendo. Sabíamos que alguma coisa tinha ocorrido, pelo ambiente que se formou. Foi um trauma para todos nós, até porque o terrorismo, naquela época, não era algo tão estabelecido como é hoje”, recorda Luiz Eymard.

DESFECHO. As negociações se arrastaram por algumas horas, até que a polícia convenceu os criminosos a partirem, de helicóptero, para um aeroporto. A ideia era atraí-los para o local e lá efetuar as prisões. Só que a falta de preparo da polícia alemã ficou evidente, quando um ataque desordenado foi feito, culminando na morte dos nove reféns, de cinco terroristas, além de um policial e do piloto de um dos helicópteros. Ao todo, 18 pessoas perderam a vida.

“Lembro-me bem de uma declaração do chanceler alemão, na TV, dizendo que eles estavam preparados para tudo, menos para o nível que a estupidez humana pudesse alcançar. Isso me marcou muito”, afirma Eymard.

Sem falar alemão, Eymard e os companheiros de seleção, que terminaram os Jogos na sétima posição, tiveram dificuldades para entender tudo que estava acontecendo.

“Tivemos que ter ajuda de quem falava inglês. Quem estava no Brasil devia estar mais bem informado, porque as informações que nos chegavam não eram precisas. O que passava na TV era de veículos locais, não entendíamos nada”, salienta. Depois de quase dois dias de paralisação, as provas dos Jogos continuaram a acontecer sob uma atmosfera de profunda tristeza e medo.

Sequência da competição foi um dos receios de Eymard Apesar do susto, Luiz Eymard, ex-jogador da seleção brasileira de vôlei, garante que não temeu pela sua vida, até porque o interesse dos terroristas passava longe dele. No entanto, ficou o receio com a sequência da competição. “Ficamos temerosos com o que podia acontecer com as Olimpíadas. Com atraso, tudo voltou ao normal”, completa. Por motivo de força maior, os Jogos foram paralisados por 34 horas. Outra lembrança de Eymard foi ter visto, em uma das sacadas, um dos terroristas encapuzados. A cena parece estar viva na memória do ex-jogador até hoje. “Foram momentos marcantes. Acho que houve falha na segurança, que não esperava por aquilo, nem estava preparada para tal. O esporte não fazia parte do contexto terrorista da época”, detalha.

Curiosidades * Relatos dão conta de que dois funcionários do correio viram pessoas pulando os muros da Vila Olímpica, de madrugada. Acreditando que eram atletas retornando, após uma ‘balada’, eles nada fizeram, quando poderiam ter impedido o maior ato terrorista da história dos Jogos Olímpicos. * O nome do grupo terrorista Setembro Negro tem relação com a data de 16 de setembro de 1970, quando o exército israelense eliminou militantes palestinos do país; mais de 10 mil palestinos foram mortos. * As Olimpíadas de 1972 foram consideradas, na época, as mais modernas da história. Estruturas que justificavam o elogio eram instalações da Vila Olímpica, com opções de lazer para os atletas, além de o fato de o local ser destinado para um programa habitacional, após os Jogos.

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