Romance com mais de dois neurônios

Continuação do sucesso de 2012 foi a comédia mais vista do ano nos EUA

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Triângulo. Flerte do personagem de Tatum com jogador de futebol americano é uma das melhores piadas do filme
sony / divulgação
Triângulo. Flerte do personagem de Tatum com jogador de futebol americano é uma das melhores piadas do filme

Considerando que a melhor coisa do primeiro “Anjos da Lei” era o bromance entre os policiais Schmidt (Jonah Hill) e Jenko (Channing Tatum), era inevitável que esta continuação inserisse um terceiro elemento ali que colocasse à prova o “relacionamento” dos dois. E dadas as características dos personagens, nada mais natural que esse elemento seja uma loira bonita, estúpida e marombada por quem Jenko se apaixona, consequentemente se distanciando do parceiro.

Só que em “Anjos da Lei 2”, essa loira é um loiro. O nome dele é Zook (Wyatt Russell). Ele é um jogador de futebol americano. Jenko tem um encontro típico de comédia romântica com ele. E é amor à primeira vista. Os dois têm o mesmo senso de humor, compartilham os mesmos interesses – malhar, malhar e malhar – e parecem feitos um para o outro.

É esse tipo de subversão que faz do longa dirigido pela dupla Phil Lord e Christopher Miller uma produção bem menos descartável e preguiçosa que o blockbuster típico. Numa época em que os filmes se caracterizam por camadas de efeitos especiais, e não de interpretação, “Anjos da Lei 2” ousa ter mais que dois neurônios e oferecer múltiplos níveis de leitura. E se nem todos eles são geniais, o longa funciona porque ri de si mesmo – e não da inteligência do público.

O primeiro nível, e o pior deles, é o da trama policial. Se no filme anterior a dupla de protagonistas foi enviada a um colégio para investigar um esquema de tráfico de drogas, desta vez eles se infiltram em uma universidade... para investigar um esquema de tráfico de drogas.

A trama não é só uma cópia do filme original. Ela é ainda mais fraca. Porque é exatamente isso que interessa ao segundo nível de leitura de “Anjos da Lei 2”: o longa é uma sátira da febre de sequências, sagas, trilogias e continuações da Hollywood contemporânea.

Desde o início, o roteiro já escracha que, já que os “chefes” (leia-se o estúdio) gostaram do trabalho realizado da última vez, a missão agora é “fazer a mesma coisa, só que com um orçamento maior”. E a produção ordenha todas as piadas que surgem daí, desde a mudança de endereço para justificar o título original, um escritório maior e tecnológico que nunca serve para nada, além de várias perseguições e explosões desnecessárias. Até o talento de Tatum, que foi a grande revelação cômica do longa anterior, serve de combustível, quando o técnico de futebol americano comenta: “ele é muito bom! Mas ninguém fala nada, se não ele vai querer sair para um time melhor”.

Como já haviam feito em “Uma Aventura Lego”, Lord e Miller desconstroem e subvertem várias convenções da cartilha hollywoodiana. O ápice disso são a sequência de créditos genial e a cena em que Schmidt e Jenko são avisados, no meio de uma perseguição, que o orçamento do “programa” estourou, e tentam desviar de tudo à sua frente porque não podem destruir mais nada.

Esses comentários metalinguísticos, que funcionam mais para os ávidos consumidores de cultura pop, poderiam facilmente fazer com que “Anjos da Lei 2” se tornasse um filme de uma piada só. O que não acontece devido ao terceiro e último nível de leitura: o romance de Schmidt e Jenko. O filme é, na verdade, a reafirmação do amor e da confiança entre dois homens.

E o caráter progressista de um blockbuster sobre um relacionamento homoafetivo se estende ao fato de que, após uma transa de uma noite só, Schmidt é dispensado por uma garota, e não o contrário; no clímax do longa, um homem é colocado em perigo, e não uma mulher; e até na inversão do galã Tatum como o palhaço, e o comediante Hill como o sério da dupla. Essa fuga das piadas óbvias, em favor de um algo potencialmente subversivo, é o que assemelha “Anjos da Lei 2” ao último CD de Beyoncé: o conteúdo do que está sendo dito é tão relevante e feminista que dá até para ignorar que as músicas em si soam como gemidos de masturbação.

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