Uma proposta de lei equivocada

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Encontro no meio do jardim uma saia rasgada de filó cor-de-rosa. Provavelmente, uma antiga fantasia de minhas filhas. De onde surgiu e como foi parar no gramado é um mistério. Desconfio de cinco prováveis culpadas da inusitada façanha, separadamente ou num complô de destruição e malvadezas que normalmente fazem quando se juntam. Minhas plantas e vasos que o digam. No momento em que escrevo, vejo uma delas espichada sob o sol, outra, deitada na varanda, duas dentro de casa, e outra, adormecida aos meus pés. Todas exaustas. Andando na grama, descubro outra proeza: vários dos irrigadores de ferro, quase subterrâneos, comidos e destruídos em sequência. Quem fez isso teve tempo e força. Provavelmente, duas possíveis rés. Dizem que minha casa é um “cãospício”, e sou obrigada a concordar. Sempre fui ligada aos animais, especialmente aos cães: de raça, sem raça, adotados, comprados, achados, seja lá o que for. Quando minhas filhas eram pequenas, gostava de levá-las ao canil municipal para a adoção de uma mascote. E voltávamos sempre com bichinhos desnutridos, perebentos e doentes. Obviamente, escolhíamos os mais fracos, sem raça definida, carentes e magricelos. Dali iam direto ao veterinário, uma semana de internação com soros na veia, injeções, vacinas, banhos e... – Laura! Seu cachorrinho morreu... Esse telefonema se repetiu tantas vezes que um dia o veterinário, estressado, me intimou: – Laura, pelo amoooor de Deus, da próxima vez, traga um menos problemático, desse jeito não adianta, ele acaba não resistindo. Fora o risco de trazer doenças às suas filhas e aos outros cachorros da casa. – Então, tá – respondia, com relativa compreensão do problema. Até aparecer, novamente, com uma coisinha magrinha e perebenta nas mãos, de olhos ausentes e tristes, com a esperança de que, daquela vez, ela sobreviveria. Só após vários óbitos traumatizantes é que resolvemos optar pelos mais saudáveis. O doutor tinha razão. Semana passada li um e-mail que me chamou a atenção. Era uma mensagem em defesa dos pit bulls, pois querem criar uma lei que os esterilize, para provocar sua extinção em médio prazo. Abri o texto em forma de PowerPoint, que dizia: “Quando um pit bull ataca alguém, a imprensa publica com destaque. Mas todos os outros, que dia após dia fazem apenas ações dignas de admiração, continuam anônimos”. Descobri por meio do texto que vários pit bulls trabalharam como cães de resgate após o atentado de 11 de Setembro e que no mundo todo eles trabalham com a polícia, ajudam na terapia com crianças, idosos e doentes em hospitais e abrigos. O texto sensibiliza e finaliza dizendo que “pit bulls de caráter irretocável são a regra, e não a exceção da raça”. Por que o texto me chamou a atenção? Porque, como grande parte da população, também eu tinha um preconceito em relação a eles. A cada ataque noticiado nos jornais, juntava-me ao coro dos indignados pedindo a extinção da raça. Sim, eu tinha um PRÉ-CONCEITO que hoje não tenho mais. Há alguns meses, minha filha (como sempre) trouxe nos braços um filhote de cão, forte e sujo, de raça indefinida. Abandonado na rua, foi capturado por um colega que o ofereceu para adoção. Rapidamente, ela correu atrás para adotá-lo, mesmo sem saber sua origem, sua raça e suas condições físicas. Bastou ver o seu olhar carente na tela do computador para decidir levá-lo pra casa. Era uma fêmea, e, assim que chegou, logo entendi do que se tratava. – Lá vem encrenca – pensei. Corri pro computador e procurei tudo sobre pit bulls. Descobri ali feras terríveis, cães treinados para matar, para ganhar concursos em rinhas, para morrer em lutas absurdas e covardes. Criados a ferro e fogo. Mas descobri também cães de estimação, companheiros de sofá de crianças vendo TV, mansos e brincalhões, criados em ambientes calmos e saudáveis. E fiquei mais tranquila. O tempo passou, ela cresceu absurdamente, com seu pelo brilhante e tigrado. O rosto e as patas robustas não negam sua origem. Cuidada com carinho, é afetuosa com todos. Apesar do tamanho, vive querendo colo. Nunca imaginei gostar tanto de uma cadela, cuja raça sempre causou-me desconfianças. Dia desses levei-a ao veterinário. Algumas pessoas, quando a viam, se afastavam. Outras, curiosas, perguntavam: – É pit bull? – Não, é uma pit lata... – respondia brincando, enquanto ela, entusiasmada, pulava e lambia meus braços pedindo afagos. Fico feliz ao ver que meu “pré-conceito” foi por água abaixo e que na minha lista constarão novos discriminados para defender e tomar partido. Feliz ao vê-la deitada aos meus pés enquanto escrevo este texto, mesmo que seja a culpada pela irrigação destruída e pela saia cor-de-rosa, rasgada no meio do jardim.

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