Horror da guerra em Veneza

“Nobi”, dirigido por Shinya Tsukamoto, impacta ao trazer cenas fortes de tropas japonesas lutando nas Filipinas

iG Minas Gerais |

Retrato. Tsukamoto conta que buscou retratar todo horror da guerra
Domenico Stinellis/ap
Retrato. Tsukamoto conta que buscou retratar todo horror da guerra

Veneza, Itália. O horror da guerra pintou na tela do Lido com o impactante “Nobi” (“Fogos na Planície”), dirigido e interpretado por Shinya Tsukamoto. No fim da 2ª Guerra, tropas japonesas lutam nas Filipinas, onde enfrentam guerrilheiros locais. O soldado Tamura, vivido por Tsukamoto, é dispensado do seu grupo por estar tuberculoso.

Mas o hospital de campanha também não o quer por lá, pois existe uma superpopulação de doentes mais graves. Ninguém o quer, não há comida, poucas armas e munições. O exército está debandando e é um salve-se quem puder.

Nesse ambiente de caos humano, o contraste é com a natureza luxuriante do local. O verde da mata, as montanhas, o azul profundo do mar. Nesse quadro, e por oposição, a miséria humana, a violência, a fome que leva à brutalidade e ao canibalismo. A morte no Éden.

Em entrevista, Tsukamoto diz que procurou destacar esse contraste como forma de evidenciar a loucura da guerra e os danos que produz no ser humano. O filme guarda um estilo hiperrealista, com cenas cruas e chocantes. É proposital. A história é tirada do romance homônimo de Shohei Ooka, já levado à tela em 1959 por Kon Ichikawa, com Eiji Funakoshi como protagonista.

Sobre as cenas julgadas excessivas, inclusive as de canibalismo, Tsukamoto diz que queria mesmo retratar a guerra em todo o seu horror e para isso não podia economizar imagens mais fortes. “Acho que a guerra produz traumas permanentes naqueles que dela participam, conforme ouvi em relatos”, diz. “Um homem obrigado a se nutrir de cadáveres de amigos para sobreviver leva isso para o resto da vida”.

Para se preparar para a filmagem, o cineasta e ator entrevistou anos atrás alguns sobreviventes da 2ª Guerra, e que já estavam bem idosos. Eles relataram, com minúcias, o que haviam sofrido nessa fase final dos combates. “Esse meu projeto data de uns 20 anos, e, para mim, era um compromisso moral fazê-lo, pois noto que o horror da guerra vai sendo apagado da memória da população”, diz.

O outro concorrente do dia, o sueco Roy Andersson com “A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence” fecha sua trilogia iniciada com “Canções do Segundo Andar” e “Vocês, os Vivos”.

O filme abre com o que ele chama de “Três encontros com a morte”. Um homem sofre ataque cardíaco ao tentar tirar a rolha de uma garrafa de vinho, enquanto sua esposa prepara o jantar na cozinha, cantarolando uma música plácida. No segundo, uma idosa moribunda segura com o que lhe resta de forças a bolsa que contém suas joias e que ela pretende levar consigo. No terceiro, no interior de um lanchonete, um homem desaba depois de haver pagado seu sanduíche e o copo de cerveja, que ficaram intocados. Diante da tragédia, a garçonete pergunta aos outros fregueses se querem aproveitar aquele lanche grátis.

Desse jeito é o humor de Andersson. Outros personagens vão aparecer, e alguns permanecem de maneira constante ao longo do filme. Os dois principais formam a dupla de vendedores de artigos para provocar o riso. Sem eles próprios sorrirem uma única e escassa vez, tentam vender objetos como dentes de vampiro, um saco de risadas e uma máscara cômica. As situações flertam com o absurdo.

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