O caminho de uma perda

Eduardo Moscovis atua em “O Livro”, texto de Newton Moreno dirigido por Christiane Jatahy, em cartaz na Funarte

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Parceria. Ator trabalha pela segunda vez com a diretora carioca, depois de ‘Corte Seco’, peça influenciada por linguagem cinematográfica
Paula Kossatz/ Divulgação
Parceria. Ator trabalha pela segunda vez com a diretora carioca, depois de ‘Corte Seco’, peça influenciada por linguagem cinematográfica

Um livro fatídico: quem o recebe sabe que o seu destino é a cegueira, logo que acabe de lê-lo, assim como antes já aconteceu a antepassados contemplados com o mesmo objeto de presságio. “Chegou a minha vez”, pensa o escolhido. Como atravessar essas páginas até que se realize a sentença é algo que ele compartilha com o público do espetáculo “O Livro”, em cartaz de hoje a domingo na Funarte.

Ao apropriar-se da fábula escrita por Newton Moreno, a diretora Christiane Jatahy e o ator Eduardo Moscovis desdobram a crise para além da perda da visão. “O que a gente propõe é que se reflita sobre todas as perdas que nos são impostas: seja de um sentido ou uma perda material ou de entes próximos queridos. E de que forma as recebemos e conseguimos transformá-las”, diz Moscovis.

O cenário do monólogo materializa as páginas do livro, como uma grande bobina de papel em branco, com a qual o ator tem de lidar. Esta é a segunda vez que Moscovis atua sob a direção de Jatahy, diretora carioca reconhecida por investigar as fronteiras entre teatro e cinema (como faz radicalmente em “E se Elas Fossem para Moscou?”, com uma peça e um filme editado ao vivo).

“Sou profundo admirador do trabalho da Chris e acho que, de um tempo para cá, ela começou a verticalizar de uma maneira muito profunda a pesquisa. Desde ‘A Falta que Nos Move’, ela traz essa dubiedade na dramaturgia: se é improviso ou texto, se é o ator ou o personagem. Cria essa duvida e, ao mesmo tempo, aproxima bastante a plateia”, diz ele.

Admirador também de Newton Moreno, foi Moscovis quem primeiro o procurou na sede da companhia Os Fofos Encenam, em São Paulo, e contou a um produtor sobre o interesse em fazer um monólogo. “Passou um tempo e chegou o texto do Newton lá em casa”.

Ao sentarem para conversar sobre a montagem, o dramaturgo pernambucano e o ator tinham a mesma diretora em mente. Ao receber o convite, porém, Jatahy estava em meio a seis meses de ensaios de “Corte Seco” e pediu que esperasse. Pouco depois, precisou de um ator homem e chamou Eduardo para participar do espetáculo, no qual ela determinava a duração e a ordem das cenas às vistas do público.

Adiantou-se, assim, a parceria que ora se repete em “O Livro”. “É uma união de universos muito distintos”, diz Moscovis sobre a dramaturgia de Moreno e a direção de Jatahy. “Newton propõe uma poética na escrita e a Chris vem com a concretude”.

A superposição desses universos fez também com que o monólogo se tornasse uma mistura de momentos em que o personagem fala consigo mesmo e com a plateia. “É um espetáculo intimista, para 60 pessoas no máximo, estou literalmente junto do público”, diz Moscovis.

Para ele, melhor assim: ter o espectador como cúmplice. “É um gosto pessoal. Quando vou ao teatro, podendo escolher, prefiro espetáculos que me aproximem da plateia. Sinto necessidade de estar em contato e dessa troca”, diz.

Longe das novelas há quase uma década, o ator tem feito mais séries, como “Louco por Elas”, e alguns filmes. Um deles, “Amor?” (2011), de João Jardim, surgiu justamente durante o processo de pesquisa para “O Livro”. “Fiz muito trabalho de campo no Instituto Benjamin Constant, no Rio, uma escola para deficientes visuais. Estava voltando um dia, mexido por um tanto de coisas que havia vivido lá, e com o DVD do documentário ‘Janela da Alma’, do João Jardim, ao lado para estudar, quando recebi um telefonema dele para fazer ‘Amor?’”, conta, recordando a surpresa.

Ainda neste ano, será lançado “O Outro Lado do Paraíso”, novo filme de Moscovis, com direção de André Ristum, baseado na história real de um pai de família do interior de Minas que vende a casa para comprar um caminhão e ir trabalhar na construção de Brasília.

Programe-se

“O Livro”, monólogo com Eduardo Moscovis.

Quando. Hoje, amanhã e sexta, às 21h; sábado, às 19h e 21h; e domingo, às 19h. Duração: 45 min.

Onde. Funarte (rua Januária, 68, Floresta), (31) 3213.7112.

Quanto. R$ 20 (inteira) / 3213.3084

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