Sobreviventes do vírus ebola voltam marcados para casa

Sentimento de medo faz com que as pessoas se afastem daquelas que se curam da doença

iG Minas Gerais |

Longe. Vizinhos de Lahai a cumprimentam durante a volta, mas não tiveram coragem de se aproximar
Samuel Aranda/The New York Times
Longe. Vizinhos de Lahai a cumprimentam durante a volta, mas não tiveram coragem de se aproximar

Daru, Serra Leoa. Os vizinhos se alinharam, sorrindo e cumprimentando quando o furgão estacionou trazendo Jattu Lahai e sua filha de 2 anos. Ninguém se mexeu para abraçá-las. Nenhuma das cerca de 30 pessoas saiu do lugar enquanto Lahai, que sobreviveu ao ebola, caminhou até o quarto que divide com o marido. Um largo espaço se formou ao redor da mulher de traços suaves de 26 anos e seu bebê, outra sobrevivente, enquanto ela se sentava num banco.

“Quando fiquei doente, todos me abandonaram”, disse Lahai, em seu quarto escuro pela primeira vez desde que a ambulância a levou rapidamente embora, numa viagem da qual a maioria não regressa.

Chorando mansamente, ela limpou as lágrimas com a bainha do vestido e recitou uma prece silenciosa.

“Eu não achava que iria voltar para casa”, ela disse embalando a filha, Rosalie.

Recomeço. Aqui, na zona do ebola, o mundo está dividido em três: os vivos, os mortos e aqueles presos entre os dois. Para quem teve a sorte de sobreviver, voltar para casa representa o começo de outra batalha.

A experiência de Lahai de volta para casa – abafada e fria – tem sido compartilhada por muitos dos sobreviventes da epidemia de ebola que se espalha pela África Ocidental. Em agosto, a organização não governamental Médicos sem Fronteiras disse que sobreviveram somente 61 dos 337 enfermos de que cuidou nas barracas de seu centro de tratamento nos arredores de Kailahun.

Quando voltam para casa, alguns são recebidos com carinho, abraços e danças, mas outros, como Lahai, são tratados com frieza ou coisa pior. De acordo com profissionais da saúde, em alguns lugares os vizinhos fogem.

“Quanto tempo o vírus vive?”, um rapaz perguntou aos profissionais de saúde que levaram Lahai de volta para casa. “O que vai matá-lo?”, questionou outro em meio a uma enxurrada de perguntas ansiosas. “Como é possível se curar?”, indagou outra pessoa.

Os temores, contudo, não estão restritos a Serra Leoa, o país com o número mais elevado de casos de ebola. Pessoas nos Estados Unidos foram contra a decisão de levar dois profissionais da saúde norte-americanos infectados ao Hospital Universitário Emory, em Atlanta, para ser tratados, temendo que a enfermidade se espalhasse ainda mais.

Mortes. Especialistas internacionais em saúde alertaram que a epidemia nos países afetados – Serra Leoa, Libéria, Guiné e Nigéria – deve ser muito pior do que a estimativa oficial de 2.127 infecções e 1.145 mortes. As autoridades locais de saúde afirmam esperar uma explosão nos casos agora que se intensifica a campanha para encontrar pacientes escondidos, muitos dos quais temerosos de que a ida ao hospital signifique uma sentença de morte.

Lahai disse que permaneceu doente em casa durante três dias, com diarreia severa, antes de ser levada às pressas ao isolamento na cidade de Daru. Ela contou ter contraído a doença do marido, Lahai Kallon, 32, professor que se infectou ao participar de um funeral numa aldeia vizinha.

“O corpo estava se esvaziando”, ela contou a respeito da enfermidade intensa.

Então, profissionais com roupas protetoras a levaram para o centro de tratamento da ONG Médicos sem Fronteiras em Kailahun.

“No dia em que fui embora, me senti como se estivesse na guerra. Eu estava com muito, muito medo. Pensava que perderia a vida. Só não aconteceu graças à Médicos sem Fronteiras”, disse.

O marido também sobreviveu. No dia da volta para casa, Lahai se sentou sozinha no banco segurando o neném, ao lado dele, que não a abraçou. A irmã mais velha veio, mas também não a tocou. Apenas sorriu e disse que estava feliz em revê-la.

Isolamento

Serra Leoa. Praticamente um quarto da área total de Serra Leoa foi isolado pelo governo, por meio de barreiras nas estradas ocupadas por soldados e pela polícia, que exigem autorização oficial para liberar a passagem.

Paciente foge de hospital na Libéria e causa confusão Monróvia, Libéria. Um paciente infectado pelo vírus do ebola fugiu de um hospital de Monróvia, capital da Libéria, onde estava em quarentena nessa segunda. O homem correu em direção a um movimentado mercado da cidade em busca de comida, mas foi encontrado pelos médicos e forçado a entrar em uma ambulância. Ele trazia um sinal indicando que havia sido testado positivamente para o vírus. O surto de ebola matou 1.552 pessoas em quatro países – Guiné, Libéria, Serra Leoa e Nigéria – e infectou outras 3.062, segundo os últimos números da Organização Mundial da Saúde (OMS). Se o ritmo atual de infecção prosseguir, a OMS prevê que, em um período de entre seis e nove meses, 20 mil pessoas podem ter sido infectadas. Um grupo missionário dos EUA anunciou nesta terça que um médico americano obstetra que trabalhava em um hospital de Monróvia foi testado positivamente para ebola.

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