Sucessão presidencial já começa a lembrar fenômeno Collor de 1989

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DUKE
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Era um dia de chuva e sem praia quando o avião de Eduardo Campos (PSB) se espatifou. E tudo mudou. Tudo ficou tão desigual, como disse Herbert Vianna. A novidade veio dar na praia da campanha eleitoral. Cheia de paradoxos. Uma deusa maia com rabo de baleia. Brilhando o azul intenso dos olhos de Campos. Iluminando uma cena até então opaca. Já em fevereiro de 2013, quando Dilma Rousseff (PT) se esbaldava em níveis astronômicos de aprovação popular, adverti que seu favoritismo corria riscos. Lembro-me agora da velha história de que “O Estado de S.Paulo” teria repetidamente advertido a Casa Branca sobre os equívocos de sua política para o Oriente Médio. Não deram importância. Deu no que deu. Para mim e para alguns, apesar da elevada aprovação do governo Dilma, eram patentes as fragilidade de sua gestão, que, ao longo do tempo, levaram a uma espécie de “querer mudar para não sei o quê”. Dilma e o governo cometeram, prodigamente, erros graves em momentos de elevados créditos ofertados pela população. Créditos que começam a faltar na hora crítica. A falta de objetivo nos sentimentos gestados pelas contradições do governo Dilma resultou em uma situação paradoxal. Dilma manteve-se líder e favorita todo o tempo, mas sua liderança não convencia. Baseava-se em fatos estruturais e nada mais. O tempo passou, passaram as manifestações, a Copa do Mundo não foi um fracasso logístico, o governo muito fez e pouco comunicou adequadamente, e Dilma continuava líder. Nem mesmo o flerte com a recessão produzia elevação de desemprego. Os astros ajudavam Dilma a manter-se na liderança. A eleição, por sua vez, apesar do calor do noticiário, prosseguia gélida para a maior parte do eleitorado, pouco interessado em um debate sobre modelos econômicos. Para melhorar a cena para Dilma, apesar do otimismo de setores do mercado que cravavam a vitória de Aécio Neves (PSDB) como certa, a liderança prosseguia com a candidata governista. Mantendo-se essa situação, Dilma deveria vencer no segundo turno contra Aécio. Ou com Eduardo, que, com sorte e o carisma de sua candidata a vice, Marina, poderia embolar a disputa pelo segundo lugar. Eis que um cisne negro de proporções catastróficas muda tudo e traz Marina para o centro da cena política, impulsionada pela emoção e pelo seu recall da eleição passada, além do fato inequívoco de que é ela quem melhor personifica o desejo por mudanças da população. Desejo gestado a partir dos equívocos do governo. Marina, pouco a pouco, assume a condição de favorita com uma mudança relevante: as vantagens estruturais da campanha não estão fazendo a diferença. Fariam se a eleição fosse fria e desinteressante. Com Marina e sua possibilidade de vencer, os holofotes estão acesos, e ela surge comunicando-se melhor, e mais: sem precisar de propaganda eleitoral. A mídia se encarrega de espalhar a nova. Poucos aguentam o ridículo da propaganda eleitoral, e, assim, o favoritismo de Dilma fica mais do que ameaçado. Definha na mesma praia em que todos admiram a novidade. A novidade está na areia. Um paradoxo em forma de sereia. Alguém que repete os sentimentos que empurraram Collor em 1989 e que deu às costas brasileiras para mudar a cena eleitoral. Em 2002, Ciro Gomes foi a sereia de então. Chegou a ocupar posição de empate técnico com Lula, mas declarações estapafúrdias enterraram suas chances no fim de agosto daquele ano. Até agora, Marina coube muito bem no figurino de novidade. Tem-se mostrado consistente em driblar suas contradições e trazer a campanha para o seu campo. Já Aécio e Dilma estão como lutadores de luta livre esperando a hora, que nunca chega, de ocupar o centro de um palco que não é deles.

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