Evolução do basquete mundial já coloca norte-americanos em alerta

Lesão de Paul George pode mudar o rumo do melhor basquete do planeta; liberação de atletas para torneios internacionais é questionada

iG Minas Gerais | JOSIAS PEREIRA |

James Harden, Anthony Davis e Derrick Rose comandam os Estados Unidos na Copa do Mundo de basquete
FIBA/REPRODUÇÃO
James Harden, Anthony Davis e Derrick Rose comandam os Estados Unidos na Copa do Mundo de basquete

Os Estados Unidos seguem como o 'bicho-papão' da Copa do Mundo de basquete. Na Espanha, os norte-americanos lutam pelo quinto título mundial, feito que deixaria a seleção do Tio Sam com o maior número de conquistas ao lado da extinta Iugoslávia. Mas além das performances arrebatadoras, a imprensa norte-americana está de olho em outros fatores, principalmente os desdobramentos referentes à lesão do ala Paul George. Com o potencial de se transformar em uma das grandes estrelas da NBA, o jogador do Indiana Pacers acabou se lesionando durante um jogo-treino dos Estados Unidos para a Copa do Mundo de basquete.

Após subir para rejeitar uma bandeja de James Harden, o atleta caiu de mau jeito com a perna direita e teve fratura exposta, muito semelhante a sofrida por Anderson Silva na luta contra Chris Weidman. O lance chocante pode ter mudado, talvez para sempre, a visão da NBA sobre a cessão de jogadores para os campeonatos mundiais organizados pela FIBA e até mesmo para os Jogos Olímpicos. Pelo menos esta é a visão do jornalista e estudioso do basquete norte-americano Grant Belcher.

“Quando Paul George fraturou a perna direita durante um amistoso preparatório da seleção norte-americana para a Copa do Mundo de basquete, a lesão significou muito mais que um lance assustador. Pode ter representado o fim de uma era”, avalia Belcher, que mora no estado de Oklahoma e vem acompanhando de perto o crescimento do Thunder, equipe que conta com os astros Kevin Durant e Russell Westbrook.

“Contusões significativas acontecem todo o tempo em qualquer esporte. O basquete não está ileso a este carma. Um time considerado excepcionalmente saudável durante toda uma temporada é uma exceção. Mas então o que há de diferente na lesão de Paul George que vem causando tanta discussão na NBA e em toda a comunidade do basquete? Três coisas: estrelato, gravidade e a foma como a contusão aconteceu”, destaca Belcher.

Veja as opiniões do jornalista nos tópicos a seguir:

Aspirações de uma estrela e os reflexos

Paul George é uma das estrelas em ascensão na NBA, e os Pacers estão torcendo para que este status continue assim. Nenhum jogador está imune a lesões, e nenhuma franquia gosta de admitir a “preferência” pela lesão de um jogador em detrimento do outro, mesmo quando o instinto natural irrompe após algo inesperado. Mas quando uma estrela 'cai', aí sim temos um grande problema. Lesões como as sofridas por Paul George nos fazem perceber que as superestrelas do basquete não estão totalmente seguras, e que por mais dinheiro e fama que eles consigam obter, isto não significa totalmente que seus ossos ou ligamentos são mais resistentes.

Um dos jogadores que mais sentiram a lesão de Paul Geoge foi o armador do Chicago Bulls e também da seleção norte-americana Derrick Rose, atleta que sabe muito bem que lesões não '‘escolhem’' estrelas ou competidores medianos. Durante a primeira rodada dos Playoffs da NBA, em 2011, Rose sofreu uma ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, desencadeando uma série de dificuldades de recuperação, agravamentos e novas lesões. Mais de três anos depois, todos ainda esperam ver Rose recuperando a forma física que o fez ser MVP da NBA.

Veja o vídeo da lesão de George: 

Repercussão nas redes sociais e o temor de outros atletas 

A gravidade da lesão de Paul George ganhou ainda mais força devido a repercussão do acontecimento nas redes sociais. Enquanto as manifestações explodiam no Twitter, dois nomes foram constantemente relacionados a Paul George: o ala-armador Shaun Livingston e o ala Kevin Ware, dos Cardinals da Universidade de Louisville. Eles representam as mais chocantes lesões que o basquetebol norte-americano ofereceu nos últimos anos. Agora, a perna fraturada de George entra neste ingrato ranking. No entanto, uma lesão grotesca ao olho humano não significa necessariamente que ela tenha sido a mais grave.

 

O impacto de uma contusão visualmente brutal como a de Paul George pode afetar os colegas de equipe e outras pessoas que presenciaram o fato pessoalmente. As imagens de superestrelas como Kevin Durant e James Harden consternados em quadra, sabendo que o que eles viram é uma coisa que nunca deveria ser vista, revelam a história verdadeira. Estas imagens retornarão em suas mentes periodicamente quando subirem para uma temporada ou lutarem por um rebote: “poderia ser eu”.  

O ambiente em que a lesão aconteceu

 

Finalmente, o ambiente e as circunstâncias que cercam a lesão de George talvez sejam os fatores mais chocantes do acontecimento. Para uma superestrela da NBA, a sua carreira vem em primeiro lugar – antes mesmo da FIBA, dos Jogos Olímpicos, antes mesmo de qualquer coisa. Este é o trabalho deles, a vida de cada um deles está nisto. Paul George irá perder toda a próxima temporada da NBA por conta de uma lesão que aconteceu justamente durante a intertemporada da liga. A partida não era nem mesmo válida pela NBA, não era nem mesmo um jogo oficial da FIBA. Aquela partida foi uma de apresentação, um treino. Os jogadores estavam atuando como se aquele encontro casual fosse um All-Star Game. Não há maior hona do que representar seu país em uma competição contra o resto do mundo, mas não há situação mais devastadora do que sofrer uma lesão representando seu país.

A gravidade da lesão, e o estrelato crescente são os motivos das ondas negativas que circulam o mundo do basquete. Vários jogadores terão que tomar uma decisão. Kevin Durant já fez a sua.

O 'suspeito' pedido de dispensa de Durant

Dias depois da lesão de George, Kevin Durant decidiu pedir dispensa da seleção norte-americana citando “cansaço mental e psicológico” como a razão fundamental para a sua decisão. Vamos deixar uma coisa clara. Durant sabe exatamente a quantidade de força mental e psicológica necessária para disputar de uma competição internacional após uma temporada pesada de jogos na NBA. Ele já fez isto antes, inúmeras vezes.

Talvez Durant tenha se transformado em um homem velho e fatigado diante dos nossos olhos, ou há muito mais por trás de sua decisão do que a explicação vazia de “exaustão mental e física”.

 

Seus companheiros, bem como o técnico norte-americano Mike Krzyzewski, estão surpreendidos e se sentem praticamente traídos com a decisão inesperada da estrela. Coach K disse aos repórteres depois do anúncio de Durant que estava realmente surpreso com a decisão, e que a seleção norte-americana teria que mudar suas táticas ofensivas de forma significativa em um curto período de tempo. Mas se Krzyzewski, que está envolvido com o basquete dos Estados Unidos desde 1979, se mostrou surpreso com o anúncio de Durant, é melhor ele se preparar para o que está por vir.

Assista a performance de Durant na última edição do Mundial contra a Lituânia: 

Entendendo o culto norte-americano ao basquete

O basquete norte-americano é superior aos demais. Sem ofensas ao resto do mundo, mas nada além de uma medalha de ouro em um torneio internacional é considerado uma vergonha para nós, norte-americanos. Não é tramela, salto alto, são os fatos. Por isto, quando um time norte-americano não consegue apresentar uma performance acima da média em um torneio mundial, grandes mudanças são feitas na estrutura da modalidade.

Tome 1998 como exemplo. Uma equipe de amadores e estrelas em ascensão representaram os EUA nos Jogos Olímpicos de Seul. Eles acabaram caindo ante os soviéticos e levaram a medalha de bronze. Nada além do ouro era esperado daquele time, mesmo que constituído de jovens jogadores. As atuações vergonhas dos Estados Unidos continuaram em 1990, quando perdemos para Porto Rico nos Jogos Pan-Americanos. 

Naquele mesmo período, a FIBA permitiu que os jogadores do basquete profissional norte-americano competissem pela primeira vez em torneios internacionais. Antes dos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, a presença no torneio olímpico era permitido apenas a jogadores profissionais da Europa e da América do Sul. 

Os EUA, rejuvenescidos com uma nova filosofia e ansioso por vingança após quatro anos vergonhosos, foram em busca de seus maiores destaques individuais e montaram o “Dream Team”, o melhor time que já pisou em uma quadra de basquete em toda a história da modalidade. Nesta lista de superestrelas estão nomes como Michael Jordan, Magic Johnson, Larry Bird e Scottie Pippen. A equipe foi tão dominante e levou o jogo a outro nível de disputa que o treinador Chuck Daly não solicitou nenhum um pedido de tempo durante todo o torneio.

O “Dream Team” continuou nos Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta, a maior margem de pontos que um campeão já registrou em um torneio internacional – 31,8 pontos de diferença por jogo. Em 2000, os Estados Unidos mantiveram a hegemonia e o ouro, mas aquela conquista foi criticada por vários norte-americanos, que consideraram inaceitável um triunfo por apenas dois pontos de diferença na semifinal contra a Lituânia e uma vitória por 10 pontos de frente na decisão diante da França. E, finalmente, em 2004, o desastre chegou aos Estados Unidos. Foram três derrotas no torneio olímpico (a maior quantidade de derrotas na história do basquete norte-americano) e a queda para a Argentina nas semifinais. 

Veja a derrota dos EUA para a Argentina na semifinal olímpica de 2004:

Tudo o que aconteceu em Atenas serviu de base para o que nós chamamos de 'era moderna' do basquete norte-americano, e a formação do 'Time da Redenção'. Equipe construída nos mesmos moldes do “Dream Team” original, o time dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, precisava provar que os Estados Unidos são a força dominante no basquete mundial. E eles provaram este poder levando o ouro, o título mundial e mais uma vez o ouro nos Jogos de Londres.

O que nos traz de volta ao presente e a lesão de Paul George.

O futuro assusta

Você pode colocar um preço para a glória do seu esporte e do seu país? E se este preço custar milhões de dólares em seu bolso? O que vem primeiro – representar seu país ou representar sua franquia na NBA? Os times da NBA é que devem decidir em quais competições internacionais seus atletas jogarão? E , se assim for, poderá os Estados Unidos montar um formidável time outra vez?

 

Não é a lesão de Paul George, ou o pedido de dispensa de Kevin Durant que irá afetar o favoritismo da seleção norte-americana na Copa do Mundo de basquete. Nó ainda temos os melhores jogadores do mundo à nossa disposição, e o nosso talento excede (com exceção talvez da Espanha) qualquer outro país do mundo. 

Mas as coisas são diferentes agora, o basquete dos Estados Unidos tem conseguido obter resultados por meio do talento mesmo quando o treinamento e a execução das táticas de jogo não funcionam com perfeição. 

 

Entretanto, este abismo de talentos está acabando. A disparidade entre o Dream Team de 1992 e o resto do mundo era muito maior do que o espaço de tempo entre o time que conquistou o ouro em Atenas e o restante dos adversários diretos dos norte-americanos na luta pelo topo do mundo. E este abismo está muito menor agora. O basquete não é um esporte norte-americano, mas sim do mundo. Alguns dos maiores adversários dos Estados Unidos colocam em quadra um time quase todo formado por jogadores que atuam na NBA. O time titular da Espanha, por exemplo, com os irmãos Gasol e Serge Ibaka, é o bastante para impor temor ao combinado norte-americano.

 

E agora, com as estrelas do basquete dos Estados Unidos tendo que escolher entre o dinheiro e representar seu país, esta disparidade entre as seleções tende a diminui ainda mais. Este é um período de transição para os norte-americanos, e grandes decisões estão por vir. As opções de atletas norte-americanos como LeBron James e Kevin Durant nos próximos anos poderá interferir diretamente no futuro do basquete local por décadas.

Independentemente da decisão destes jogadores, vai chegar um tempo, cedo ou tarde, que os Estados Unidos irão cair frente a uma talentosa Espanha, França, Argentina ou Brasil. E, em vez de usarmos expressões como “golpe de sorte” ou “vergonha”, nós, norte-americanos, teremos que reconhecer que a disparidade técnica diminuiu drasticamente diante dos nossos olhos. Neste momento seremos obrigados a usar a velha expressão: “o melhor time venceu”.