Os pássaros do Paranã profundo e o mamão saudável

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DUKE
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No Paranã profundo há pipiras, rolinhas (cinzentas) e bem-te-vis. Foi a passarada de bela cantoria quem deu “um pé” para que eu mergulhasse, mais uma vez, nas inspirações passarinheiras de Cecília Meireles em seu “Ciclo do Sabiá”. Deu pra espairecer do frenesi do contexto das eleições presidenciais, no qual forças descaradas tentam impingir o retrato de um momento (pesquisa eleitoral) como voto dentro da urna. Ai que fadiga! Para quem ainda não leu “Ciclo do Sabiá”, recomendo porque é balsâmico – “pequenas felicidades certas”, como a autora declarou numa entrevista a Pedro Bloch: “Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros, que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar para poder vê-las assim” (revista “Manchete” 630, 16.5.1964). Gosto de pássaros livres e cuido deles com comedouros cheios e água limpa à vontade, pois “atrair pássaros é uma arte a aprender... É um prazer manhoso, mas basta saber alimentá-los – sementes, frutas, verduras, legumes frescos e limpeza cuidadosa e diária dos comedouros” (“Cuidando dos encantadores ‘peu-peus’ da Clarinha...”, O TEMPO, 6.3.2012). Outra pequena felicidade certa, apesar de formigas, muriçocas e camaleões: as onze-horas vermelhas já floriram. Aguardo as amarelas, as brancas e as rosas... Tenho maria-sem-vergonha branca, duas tonalidades de rosa, lilás e vermelha, que estão mimosas! Sem falar na profusão de alfinetes vermelhos emoldurando o muro... Há três dias, semeei girassóis amarelos (há variedades em tons laranja) – um pé deles receberá uma plaquinha com o nome de Laura Medioli, figura humana que tem ar de girassol; espero que estejam com flores na posse de Flávio Dino, governador do Maranhão, pois são as suas flores preferidas. Pense na sensibilidade de um governador que ama a beleza esplendorosa dos girassóis! É ele! Tive girassóis em meu jardim há muitos e muitos anos, mas não tenho lembrança de quanto tempo levam para florir. Cultivar girassóis é facílimo, e eles deixam o jardim tão belo! O girassol é a flor que brinda a vida e representa a glória, a paixão, a dignidade e a altivez. Já perceberam como o girassol rouba a cena em qualquer lugar? Estava certo Thiago de Melo quando poetou: “Artigo III: Fica decretado que, a partir deste instante,/haverá girassóis em todas as janelas,/que os girassóis terão direito/a abrir-se dentro da sombra;/e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,/abertas para o verde onde cresce a esperança” (“Os Estatutos do Homem”). No último domingo, eu e Clarinha fizemos uma sementeira de mostarda e outra de couve. Antes de terminar de cobrir as sementes, ela bradou: “Ai, vovó, já estou cansada! Plantar comida cansa!” Foi a deixa para uma breve preleção sobre a produção de alimentos e por que estamos plantando coisas que gostamos de comer. Sem concluir as sementeiras, ela já estava querendo plantar mamão “para os passarinhos comerem mamão saudável no pé”. Gargalhei porque a incorporação da palavra “saudável” no vocabulário dela foi bem precoce. Filha de nutricionista, quando quer comer porcaria, sempre encontra um jeito de dizer que é saudável porque é da cor da frutinha tal. E eu fico pasma e em busca de uma resposta de como falsos discursos verdes/saudáveis se entranharam até nas mentes infantis! É emergencial enfrentá-los, sob pena de a mentira virar a regra. É o futuro que queremos?

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