Cidade mineira tenta deixar lista das mais violentas do país

São Joaquim de Bicas, na região metropolitana de Belo Horizonte, lidera criminalidade em Minas

iG Minas Gerais | Joana Suarez |

Presa. Solange colocou grades na sua lanchonete após ser assaltada duas vezes pelo mesmo bandido
FOTOS: MOISES SILVA / O TEMPO
Presa. Solange colocou grades na sua lanchonete após ser assaltada duas vezes pelo mesmo bandido

Grades semelhantes às dos presídios de São Joaquim de Bicas, na região metropolitana de Belo Horizonte, cada vez mais passam a ser vistas nos imóveis da cidade. É assim que parte dos 26 mil moradores tenta conter o crescimento da criminalidade no município, que não consegue sair da lista dos mais violentos do país nos últimos anos e lidera as estatísticas em Minas, segundo o Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos. Antes do assassinato de quatro homens, na noite do último dia 25, na disputa pelo tráfico de drogas na região, alguns habitantes começavam a sentir redução dos crimes neste ano. Mesmo com a chacina, eles esperam que a situação melhore em breve.

Por trás dos ferros, Solange Machado, 48, entrega os pedidos para os clientes da sua lanchonete até as 17h, antes de escurecer. A razão de tanta proteção é o medo de novos assaltos. Foram dois no ano passado, cometidos pelo mesmo bandido. “Em 11 anos, nunca tinha acontecido nada. Agora, não tem mais jeito. Bicas mudou muito. Depois das 20h, não saio mais de casa. Coloquei a grade para me sentir protegida”, contou. A Casa de Memória, em frente à igreja, guarda as únicas lembranças que São Joaquim de Bicas quer preservar, como os instrumentos antigos e as fotos de figuras ilustres, de uma época em que todos se conheciam. Uma cidade pequena, de poucos habitantes, que era para ter mantido os ares de interior, mas herdou uma das piores características das cidades grandes vizinhas: a insegurança. O carteiro Daniel Alves, 51, conta que trabalhar no município é o mesmo que em cidade grande. “Ninguém nos recebe muito bem, querem saber logo quem é quando batemos à porta”. A agência dos Correios do município tem porta giratória e um segurança. Enterros. O que mais entristece o coveiro Raimundo da Silva, 67, nascido e criado na cidade, é a morte de jovens. Com as mãos calejadas, ele mostra a área de 40 túmulos que, em oito anos, foi preenchida por 200 corpos. A equipe de O TEMPO esteve na cidade há exatos dois anos e conversou com seu Raimundo. Segundo ele, de lá pra cá, a situação melhorou um pouco. “Acho que já mataram todo mundo. Voltamos a enterrar mais idosos que jovens. Espero continuar assim até chegar a minha vez”, disse. Naquela época, matava-se mais em Bicas que na Guerra do Iraque, conforme mostrou a reportagem. Atualmente, os números seguem a percepção do coveiro. No primeiro semestre deste ano, 11 pessoas morreram “de morte matada”, como ele diz. Isso significa uma redução de 35%, já que, no mesmo período de 2013, foram 19 assassinatos. Por outro lado, os roubos tiveram aumento de 25% nos seis primeiros meses do ano. Em uma das principais avenidas do centro, quase todos os comerciantes já foram assaltados. “Antigamente, eu amanhecia o dia no comércio, agora, às 19h, fecho as portas”, afirmou Daniel José da Silva, 75, dono de um bar. 

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