Mudança no futebol depende de descentralização do poder

Aos poucos, Movimento Bom Senso FC é mais ouvido e chamado para as discussões

iG Minas Gerais | Thiago Nogueira |

Criação. Juninho, Seedorf, Cris, Dida e Paulo André encabeçaram o Bom Senso FC, no ano passado
ERBS JR./ESTADÃO CONTEÚDO - 7.10.2013
Criação. Juninho, Seedorf, Cris, Dida e Paulo André encabeçaram o Bom Senso FC, no ano passado

Jogadores, clubes e torcedores de um modo geral têm um mesmo pedido a fazer para a CBF: mais democracia. Mas, por ser uma entidade privada, ela não dispõe de obrigação legal para isso. Por outro lado, é o futuro do futebol brasileiro que clama pela discussão, como mostrou O TEMPO em reportagem especial publicada ontem. Na edição de hoje, especialistas e personalidades do meio esportivo apontam as possíveis soluções para os problemas.  

De forma até surpreendente, desde o ano passado, os jogadores vêm trocando a chuteira pelo par de sapatos para pleitear mudanças administrativas. Assim, pouco a pouco, o movimento Bom Senso FC tem conseguido se fazer ouvir na confederação.

“Já existe uma abertura, o que falta é se institucionalizar. Os jogadores querem participar ativamente, em uma assembleia geral, por exemplo. Não sabemos como isso será feito. Informalmente, isso tem sido prometido, mas não sabemos se haverá pressão suficiente para se concretizar. Mas hoje em dia já temos força para isso”, avalia o diretor executivo do Bom Senso, Ricardo Borges Martins.

A solução, no entanto, não será assim, tão fácil. Ex-jogador e hoje executivo de futebol e treinador, Leonardo acredita que um dos primeiros passos é desvincular da CBF a função de organizar as competições no país. O papel deveria ser exercido por ligas independentes, motivadas a pelas regras de mercado. “O caminho é abrir essa estrutura para que as pessoas possam investir. Hoje, ela está muito fechada nas mesmas pessoas. O Brasil tem uma riqueza de know-how, mas o futebol não consegue entrar nesse mundo corporativo. Está preso nessa estrutura social sem fins lucrativos”, disse Leonardo, em entrevista recente ao SporTV. “Não existe uma unidade de negócios”, completa o consultor de gestão esportiva da BDO, Pedro Daniel.

A missão, por sua vez, não é fácil. “A principal vilania da CBF é não permitir que o futebol nacional se desenvolva, formando uma liga forte. Ela quer evitar isso a todo custo, pois politicamente pode enfraquecê-la”, analisa o professor da Universidade de Campinas Humberto Miranda.

Intervenção. Na Europa, os principais campeonatos são geridos por ligas, deixando as seleções a cargo das federações. Mas não é assim por todo o lado. Na Argentina, o governo precisou comprar os direitos de transmissão para salvar os clubes, em situação financeira delicada.

Por aqui, a ideia não é bem vista. “Uma intervenção do Estado não é a melhor maneira, até porque o futebol anda com as próprias pernas. A CBF é uma instituição de direito privado e tem total autonomia para as soluções. O que vemos é que ela não tem uma estrutura adequada”, ressalta Pedro Daniel.

Rol de polêmicas

1987. Os clubes decidiram fazer um campeonato menor com times convidados, mas a CBF não concordou. O impasse foi resolvido com um torneio dividido em dois módulos. O Flamengo venceu o Módulo Verde, e o Sport, o Amarelo. A equipe carioca, achando-se o legítimo campeão, se recusou a enfrentar o time do Recife. A CBF chegou a reconhecer os dois campeões, mas a decisão mais recente da Justiça dá o título apenas para o Leão.

1994. Na volta dos Estados Unidos, o avião que trouxe a seleção chegou com 11 toneladas de bagagem extra dos jogadores e cartolas. Quando a Receita Federal interveio, Ricardo Teixeira “deu seu jeito” e conseguiu a liberação. Depois, a CBF assumiu o pagamento de R$ 50 mil em impostos por causa de uma ação da Justiça.

1992-1997. Durante cinco anos, Ricardo Teixeira teria recebido 21 depósitos da empresa Sanud, com sede em Lichtenstein, um paraíso fiscal. Teixeira foi acusado de receber propina da ISL, ex-parceira de marketing da Fifa, da qual se tornou sócio.

1998. Com contratos milionários, Ricardo Teixeira transformou a CBF numa entidade lucrativa, o que resultou na criação de CPIs na Câmara dos Deputados e no Senado.

A Nike “perdeu” o direito de marcar amistosos e exigir jogadores de primeiro escalão. A CBF também foi acusada de financiar campanhas políticas.

2000. A Copa João Havelange foi a solução encontrada frente ao imbróglio provocado pela entrada do Brasiliense na Justiça. A competição foi dividida em módulos e trouxe de volta ao primeiro escalão clubes que estavam na Segundona, como o Fluminense.

2013. Uma falta de comunicação entre a CBF e a Portuguesa fez com que o time paulista escalasse um jogador irregular. A perda de pontos da Lusa favoreceu o Fluminense, que se manteve na elite.

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