Voto bambo

iG Minas Gerais |

A sucessão de fatos ocorrida no país nos últimos dias já fez mudar nas mais diversas circunstâncias a perspectiva do resultado possível das eleições no plano federal e dos Estados. O trágico acidente que vitimou o presidenciável Eduardo Campos, a história do aeroporto de Cláudio e mais recentemente a dúvida quanto à propriedade do jato fatídico, uma onda de fofocas, de achismos, de intrigas fez das eleições e dos índices de aceitação de cada candidato verdadeira sanfona. Da presidente Dilma, as denúncias nem mais se consideram, dada a fartura de malfeitos e contradições de seu governo e propriamente da candidata. Tudo já se disse e nada mais vai importar para os eleitores, que a cada dia parecem estar loucos de vontade que acabe logo essa chatura em que se transformou o processo eleitoral no Brasil. Já que nada vai mudar mesmo, ecoa descrente o povo pelas ruas, que essa merda, conforme também disse com sutileza Alexandre Kalil, acabe logo. O Brasil precisa repensar o modelo da representação da sociedade pelas suas instâncias políticas. Não podemos mais classificar como uma crise a evidente falta de legitimidade dos nossos partidos políticos, de nossos parlamentares, em qualquer nível, e propriamente dos prefeitos, governadores e presidentes da República. Há décadas que a denúncia da falência de nossa representação ganha destaque na imprensa, nas associações, na fala de líderes, nos estudos da academia e somente nesses momentos das eleições é debatida. Passado o momento eleitoral, voltamos aos mesmos lugares para daqui a dois ou quatro anos ressuscitarmos o tema. Nenhum cidadão com razoável discernimento aprova, por exemplo, a constituição atual das câmaras municipais, das assembleias legislativas, da Câmara dos Deputados e do Senado Federal sem tecer críticas, as mais contundentes. De nenhum dos candidatos atuais, de qualquer partido e a qualquer cargo, se ouviu como proposta a revisão, mínima que seja, da dotação orçamentária estabelecida pela Constituição Federal para o funcionamento das câmaras municipais, que sugam recursos importantes dos cofres dos município para depois jogá-los no lixo. Ninguém foi aos seus eleitores prometer ser uma voz na Câmara ou no Senado aplicada em denunciar a farsa que cerca a concepção e formalização da nossa legislação, que interesses defendem e como a sociedade pagará pela sua vigência. Da parte do cidadão, ninguém retira um pouco de seu tempo para criticar o trabalho daquele no qual votou nas últimas eleições. Isso faz com que se evidenciem e se elejam os fulanos da ambulância ou da lotérica, os zés da apae, os rola-bostas, os militares de todas as patentes, os jogadores de futebol, vôlei, basquete, bolinhas de gude, do diabo, que se arvoram em representantes do povo para em seu nome vomitarem nas tribunas ou acochambrarem nos gabinetes o que entendem como certo para a sociedade. As sociedades deles, talvez. Essa constatação, que já fez história, dá a dimensão de como elegemos nossos políticos e porque, ao menor vento contra, mudamos nosso voto. Nosso voto não tem suporte, não tem valores nem convicções. Nós, brasileiros, nos contentamos com muito pouco. Por isso, estamos onde estamos, rumo a lugar nenhum.

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