A volta depois da queda

Jornalista que virou tão célebre quanto seus entrevistados acabou perdendo emprego, casa e agora retorna mais discreto

iG Minas Gerais | Laura M. Holson |

Regresso. Kevin Sessums foi ao fundo do poço e agora começa a reconstruir sua carreira
Matt Edge/The New York Times
Regresso. Kevin Sessums foi ao fundo do poço e agora começa a reconstruir sua carreira

SAN FRANCISCO, EUA. Na década de 80, havia poucos jornalistas de celebridades que viviam de forma tão extravagante quanto Kevin Sessums, da revista “Vanity Fair”. Ele fumou um baseado com Heath Ledger em Praga. Entrevistou Courtney Love enquanto ela estava de molho na banheira. Deitou-se na cama com Cher.  

Durante aqueles anos intoxicantes das revistas chiques em ascensão – antes de a fama ser desvalorizada pelos astros de reality shows e do selfie obscurecer o glamour das sessões de fotografia –, Sessums oferecia ao público e aos astros do cinema o que eles queriam: um ao outro. Ele integrava o círculo social de jornalistas que cobriam Hollywood e recorriam ao encanto, à coragem e a contatos impressionantes não apenas para escrever a respeito da cultura de celebridades, mas para vivenciá-la.

Ele também era tratado como igual. Barry Diller e Diane von Furstenberg deram uma festa para Sessums no Indochina quando ele publicou suas memórias em 2007, “Mississippi Sissy”.

Os jornalistas da “Vanity Fair” tinham vida confortável durante as editorias de Tina Brown e, posteriormente, Graydon Carter. Brown costumava distribuir contratos de seis dígitos para quem considerava um repórter astro, incluindo Sessums. Quando não estava no Chateau Marmont em West Hollywood, Sessums residia num loft alugado de 186 metros quadrados em Manhattan. Era um belo cenário para um jornalista, mas à medida que celebridades passaram a confiar a construção de suas personalidades públicas a divulgadores, à mídia social e à reality TV, Sessums, 58, achou difícil se ajustar.

E, então, tudo veio abaixo: uma desavença com Brown, uma recaída no abuso de drogas, seguidos pelo desemprego e uma temporada vivendo da assistência social.

Hoje, Sessums está tentando realizar algo parecido com um regresso. Agora sóbrio, assumiu no ano passado o cargo de redator-chefe da “FourTwoNine”, nova revista refinada publicada em San Francisco pela rede social profissional para gays e lésbicas, dot429.com. Executivos afirmam que a revista é uma maneira de arrecadar publicidade online e ajudar a construir público para o site.

Para Sessums, é uma oportunidade de tirar proveito de uma carreira de 30 anos. Em sua primeira edição, botou na capa os velhos amigos Sarah Jessica Parker, de Hollywood, e Andy Cohen, do canal Bravo. E requisitou Courtney Love para uma futura edição; ela estará nua novamente.

Sessums descreveu a “FourTwoNine” como “o filho bicha que nasceu do encontro secreto entre “Interview”, de Andy Warhol, e “The New Yorker”. Porém, o futuro de Sessums na publicação de revistas depende do sucesso de uma startup enxuta, algo bem distante do mundo luxuoso que já habitou. “Encaro a cultura de startups como encaro a sobriedade”, ele disse, enquanto olhava pela janela do pequeno apartamento em Telegraph Hill. “É um dia de cada vez”.

Como muitas das melhores histórias de Hollywood, esta começa com um rompimento.

Durante quase 15 anos como editor colaborador, Sessums escreveu 27 perfis de capa para a “Vanity Fair”, antes de romper em 2004 com a revista que o definiu como jornalista. “Quando se está num lugar como a ‘Vanity Fair’, você termina identificado com ela”. Depois, “é como uma decepção amorosa, e é preciso achar uma identidade que não se baseie em um emprego”.

Brown o trouxera da “Interview” para editar a seção Fanfair e escrever perfis. “Eu o notei de imediato e nunca me arrependi”, ela afirmou durante recente entrevista. Suas reportagens eram tanto sobre ele quanto sobre seus entrevistados, estilo que ela incentivava. “Para mim, já que vão colocar seu nome na capa de uma revista e impulsioná-lo, é melhor também se colocar na reportagem”, contou Sessums.

Em 1992, Brown saiu para ser editora da “New Yorker”. Poucos astros criados por ela foram convidados a acompanhá-la. “A ‘Vanity Fair’ era vista como revista de fofocas mesmo contando com grandes reportagens”, afirmou George Hodgman, editor de revistas e livros que trabalhou com Sessums e, posteriormente, Brown, que, segundo ele, “não queria muitos jornalistas com passagem pela ‘Vanity Fair’”.

Durante um tempo, Sessums continuou em alta na “Vanity Fair”, mas ele e Carter, que sucedeu Brown, tinham diferenças estilísticas. “Kevin produzia um tipo de reportagem muito pessoal”, afirmou Carter. “Não faz meu estilo”.

Com o passar do tempo, ele recebeu menos pautas. Carter descreveu o rompimento como um “lento afastamento”.

Mais ou menos na mesma época, Sessums ficou sabendo que era HIV positivo, resultado de sexo casual e do uso de drogas. Decidiu escrever um livro de memórias sobre a infância problemática no Mississippi, enquanto continuava a escrever para revistas. Porém, o jornalismo de celebridades amadureceu. Os divulgadores de Hollywood exerciam um poder enorme restringindo o acesso. A fofoca de celebridades virou uma commodity.

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