Palavras não ditas

iG Minas Gerais |

Só quem se encanta com a magia e os mistérios que povoam o mundo das ideias, das emoções e dos desejos que habitam o psiquismo humano será capaz de decifrar o conteúdo desta mensagem. Assunto em desuso, banal para muitos... É realmente muita pretensão da minha parte trazer à tona um tema desses: palavras! Ditas no dia a dia, não têm o menor glamour. Mas são perigosíssimas quando metralhadas de forma inadvertida, em uma calorosa discussão de trânsito, na guerrilha de um estádio de futebol ou em guerras familiares. Elas têm um poder de ferir profundamente, de entristecer, de ofender a ponto de matar (ou ser morto). Ou o contrário, palavras certas, quem sabe até inspiradas, ditas por pessoas ungidas, na boca de um poeta, de um carismático orador, compondo uma música sensível e tocante, têm o poder de curar, de inundar de felicidade a mente, o coração e a alma humana. A fala é, sem dúvida, o maior dos poderes, seja para o bem ou o mal. Que o digam Hitler, Gandhi, Cristo, Aristóteles, Maomé e tantos outros. Mas o que acontece com a humanidade, na qual se fala cada vez menos? Ou, ainda, na qual palavras são mutiladas, extirpadas de vogais? Vc, fds, tb, pqp, kkkk, rsrsrs e, até algo tão íntimo, afeto belíssimo como um beijo, aleija-se tanto que vira um protocolar bj?! Dito tudo isso, e de forma tão inusual, leio com inconfessável tristeza que um paulistano de 12 a 18 anos sobrevive, em média, com cem palavras por dia em suas mídias, redes, WhatsApps e torpedos. E ainda mais deprimentes, adultos jovens, a cada ano, apresentam tanto o analfabetismo funcional – sabem ler, mas não têm a menor ideia do significado das palavras, não as correlacionando com o objeto, não entendendo o sentido ou contexto das frases, por exemplo – quanto uma inibição afetiva e social, que os emudece diante de situações de envolvimento afetivo e contato social. Digo que não há prisão mais solitária que aquela na qual as coisas que pensamos, nossos sentimentos e nossos desejos são amordaçados pela nossa incapacidade de exprimi-los! A punição é a solidão, a baixa autoestima, a falta de experimentar a vida, pois isso demanda a ação de tentativas que, naturalmente, resultam em êxitos e fracassos, algo absolutamente inerente à existência humana, origem dos relacionamentos, ao desenvolvimento da maturidade, ao enriquecimento relacional. Daí, até a carência afetiva é menos que um passo. Deu para entender todas as palavras que foram ditas até agora? Feliz de quem chegou até aqui e, para falar a verdade, nem sei se vale a pena continuar. Afinal, esta é apenas uma coluna sobre comportamento e relacionamento interpessoal. Como lidar com a frustração de saber que 2/3 dos meus semelhantes já não entendem mais nada daquilo que estou dizendo? Então vou finalizando, tentando deixar uma mensagem: palavras têm alma! Não importa se ditas, escritas, ouvidas. E mais, são códigos que saem dos que falam, com um significado único, pois tentam (mas nem sempre conseguem) dizer das ideias que pensam, das emoções que sentem , dos desejos que sonham realizar. E para decodificá-las, esperamos que aqueles que as ouvem e as leem entendam o significado sagrado dos pensamentos, sentimentos e ações do outro. Lamento que sejamos tão treinados para dizer o que não pensamos, expressarmos o que não sentimos, fazermos o que não queremos, tudo para agradar aos outros, para sermos aceitos, para nos domesticarmos pelos aparatos familiares, sociais, religiosos e políticos. Aos mais evoluídos, a leitura do não verbal. Aos mais limitados, o relacionamento com as amantes virtuais, os joguinhos do smartphone, a fuga para as redes sociais, em que qualquer frustração ou derrota não precisa de reflexão; é só deletar. Silêncio no metrô de Tóquio, no Japão. Todos estão conectados, introvertidos, mumificados, individualizados, atentos apenas aos seus eletrônicos. Respeito absoluto pela mudez e surdez do universo virtual. Somos números, estatísticas. As palavras foram extintas e, com elas, a emoção, a poesia, o êxtase do amor...

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