Testemunhas de crimes de guerra pagam um alto preço

Cidadã sérvia diz que se sente presa na nova vida, enquanto alguns acusados foram absolvidos

iG Minas Gerais | Marlise Simons |

Traidora. Mulher que testemunhou contra Milosevic, agora com novo nome, conseguiu voltar à Sérvia 11 anos após ter saído do país
Andrew Testa/The New York Times
Traidora. Mulher que testemunhou contra Milosevic, agora com novo nome, conseguiu voltar à Sérvia 11 anos após ter saído do país

Haia, Holanda. Ela escolheu o anonimato de uma estação de trem para conversar sobre o peso insustentável de levar uma vida dupla que jamais escolhera para si. Quando a jovem de Belgrado resolveu testemunhar no julgamento de um dos casos de crime de guerra mais sensacionais das últimas décadas, envolvendo o presidente sérvio Slobodan Milosevic, prometeram que sua identidade não seria revelada.

Ela recebeu um codinome, “Testemunha B-129”, e sua voz e seu rosto eram eletronicamente alterados no telão do tribunal das Nações Unidas durante o julgamento do líder da antiga Iugoslávia, em Haia, quando testemunhou, em 2003. Até que um técnico divulgou trechos de sua voz verdadeira por engano, e o som foi transmitido ao vivo para a Sérvia. Logo que ela voltou para casa, alguém tentou matá-la. A Testemunha B-129 agora está entre as que vivem sob os cuidados da polícia em programas de proteção a testemunhas, longe de casa, com novos nomes e histórias para esconder suas identidades reais. “Para a Sérvia, eu sou uma traidora”, afirmou a mulher discreta de modos delicados. “Ajudar o tribunal arruinou a minha vida”. Labirinto. A Testemunha B-129 buscou um repórter que, de acordo com determinações legais, não pode revelar sua identidade nem sua localização, para conversar sobre o alto preço pago por ela pelo testemunho contra Milosevic e a polícia secreta da Sérvia. Segundo ela, os últimos 11 anos foram como viver “em um labirinto”. “Nos disseram que poderíamos levar uma vida normal”, afirmou. Ao invés disso, ela e o marido se sentem presos nas garras de uma burocracia passiva, dos integrantes do tribunal da ONU e da polícia de um país desconhecido. “Você não é imigrante”, afirmou a Testemunha B-129. “Quando recebe uma nova identidade, perde tudo: os amigos, as propriedades, os contatos com a família, a carteira de motorista, sua própria história”. Com frequência, acrescentou, “sinto como se estivesse prestes a perder a cabeça”. Autoridades do tribunal de Haia e da polícia do novo país de residência da testemunha se negaram a discutir o caso. Porém, a história foi corroborada por documentos judiciais e cartas mostradas por ela e por advogados que trabalharam no processo, fornecendo uma rara perspectiva sobre uma parte moderna, mas profundamente escondida, da Justiça internacional. Tigres. Durante dois anos, a Testemunha B-129 deixou boquiaberto o tribunal em que Milosevic foi julgado ao descrever seu trabalho como assistente de Zeljko Raznatovic – o Arkan –, empreendedor sérvio com mandados de prisão emitidos por toda a Europa. Na Guerra dos Balcãs, no início dos anos 90, Raznatovic criou uma milícia, os Tigres, ou Guarda Voluntária da Sérvia. Eles logo ganharam fama por fazer saques, tráfico, e cometer assassinatos na Croácia e na Bósnia. Milosevic afirmou durante o processo em Haia que não sabia nada a respeito das atividades dos Tigres. Porém, citando detalhes do livro de registros do escritório entre 1994 e 1995, a Testemunha B-129 afirmou que Raznatovic e os Tigres eram controlados, recebiam ordens e eram pagos pela inteligência de Milosevic e seus chefes de segurança. Raznatovic foi indiciado por crimes de guerra em 1997, porém foi assassinado no lobby de um hotel em Belgrado, em 2000. Durante uma das muitas entrevistas que ela concedeu, contou ter ido trabalhar para Raznatovic porque era estudante de direito na época e precisava de dinheiro. No começo, acreditava que os Tigres estivessem lutando para defender o povo sérvio, mas acabou se desiludindo. “Eles faziam aquilo pelo poder e porque gostavam de matar”, afirmou. “Queriam traficar e ganhar muito dinheiro. E muitas pessoas morreram sem razão”. Sua raiva fez com que ela decidisse testemunhar em 2003, após assistir ao julgamento do ex-presidente iugoslavo. “Milosevic mentia e negava tudo, inclusive seus laços com Arkan”, afirmou. “Senti que deveria falar. Vi coisas que a maioria das pessoas não sabia ou não admitia”. Quando voltou para casa depois de testemunhar, encontrou um policial à paisana em frente ao seu prédio. Algumas semanas depois, parentes seus começaram a receber ameaças pelo telefone. Certa noite, enquanto atravessava a rua, um carro tentou atropelá-la. Ela reconheceu o motorista, o mesmo agente da polícia que estava em frente à sua casa. Membros do tribunal agiram rapidamente e tiraram-na do país junto com o marido, levando-os para a Croácia e depois para um abrigo na Holanda. Eles tiveram de esperar 18 meses até que o governo europeu os aceitasse no programa nacional de proteção a testemunhas.

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