Nove em cada dez pacientes na fila aguardam por um rim

Somente em Minas Gerais, 2.438 pacientes continuam na lista de espera por um órgão

iG Minas Gerais | Luiza Muzzi |

Kátia, 49, faz hemodiálises e aguarda transplante há quase dez anos
Alex de Jesus
Kátia, 49, faz hemodiálises e aguarda transplante há quase dez anos

Há quase dez anos fazendo tratamento de hemodiálise, depois de receber o diagnóstico de insuficiência renal crônica, a representante comercial Kátia Simone Vieira, 49, sonha com o dia que encontrará um novo rim compatível com seu corpo para se ver livre de vez dos aparelhos que filtram seu sangue por horas, quatro vezes por semana. Como Kátia, outras 2.437 pessoas aguardam na lista de espera por um órgão em Minas Gerais – quase 90% delas precisando de um rim, o órgão que possui a maior demanda e também a maior espera por doações em todo o país.

De acordo com especialistas, grande parte dos brasileiros que se tratam com diálise faz o tratamento há mais de dez anos, muitos deles sem qualquer expectativa de conseguir o transplante. Isso porque nesses casos, apesar da fila, a prioridade é dada a quem possuir a maior compatibilidade imunológica com o doador, o que pode demorar décadas ou mesmo não ocorrer. A incerteza é motivo de ansiedade para os pacientes, e o tratamento alternativo com os aparelhos, sinônimo de prisão. “O que mais me faz falta é a liberdade. Sou presa a uma máquina para viver”, diz Kátia, que chegou a receber um transplante em 2012, mas apresentou rejeição ao órgão 14 dias depois. Na última década, em meio à luta e a um vaivém na lista de espera, ela passou por 28 cirurgias e teve um câncer de tireoide, mas nem por isso agora abaixa a cabeça. “A vontade de sair da máquina é maior que o medo de outro transplante não dar certo. Não tenho muito mais a perder”. Dependência. Quem também aguarda há anos por uma boa notícia é o aposentado Marcone Pedro Dias de Souza, 44. Depois de descobrir problemas graves nos rins em 1990, passar por um transplante de órgão doado pela mãe, ter rejeição e fazer outros tratamentos, ele entrou, há 12 anos, para a fila de doações. “Nesse período me chamaram uma única vez, só que outro paciente se aproximou mais da genética do doador. Estou na expectativa”, conta. Para ele, poder se alimentar sem restrições e conseguir viajar a qualquer hora, para qualquer lugar, são os maiores sonhos. “Do que sinto mais falta é de ter uma alimentação melhor. Também quero ficar livre das agulhas. Quem transplanta tem outra qualidade de vida”. Pacientes em tratamento de hemodiálise podem fazer sessões em trânsito, em outras cidades, mas dependem de burocracia com agendamentos e disponibilização de vagas. “A máquina infelizmente é que mantém a nossa vida, um compromisso que não tem como adiar”, reconhece Marcone.

Entraves

Desafios.  As principais dificuldades para a captação de órgãos são logísticas, segundo a Central Estadual de Notificação e Captação de Órgãos (MG Transplantes).

Transporte. A instituição explica que a falta de infraestrutura em muitas cidades prejudica o processo, já que o tempo de deslocamento compromete a saúde do órgão doado. Além disso, é grande a concentração de equipes transplantadoras na região metropolitana.

Expectativa Frustração. No primeiro semestre de 2014, o número de transplantes renais feitos no Brasil ficou abaixo da previsão para o período, diz a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos.

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