“Transplante é quase Mega-Sena”

Ritmo de captações e de doações não acompanha aumento da incidência das doenças renais no país

iG Minas Gerais | Luiza Muzzi |

Reinício. Macedo, 47, fez transplante há 20 anos, mas houve rejeição  e ele voltou à fila por órgão
MOISE SILVA/ O TEMPO
Reinício. Macedo, 47, fez transplante há 20 anos, mas houve rejeição e ele voltou à fila por órgão

No primeiro semestre deste ano, Minas Gerais realizou 338 transplantes de rim, quantidade ainda baixa considerando a demanda de 2.171 pacientes na lista de espera pelo órgão no Estado – 1.300 apenas na capital. Especialistas alertam que o cenário desfavorável tende a piorar, já que os números de captações e de doações não aumentam na mesma velocidade com que as doenças renais se espalham pelo país.

Segundo a Sociedade Brasileira de Nefrologia, o país tem 100 mil pacientes em tratamento de diálise – que substitui as funções dos rins em caso de insuficiência renal grave –, sendo que 70% deles descobriram a doença tardiamente. Somente em Minas, são feitas 109 mil sessões por mês. De acordo com os médicos, o envelhecimento da população e a disseminação cada vez maior de diabetes e de hipertensão não tratadas nas fases iniciais têm feito com que problemas nos rins evoluam mais para a necessidade de transplantes ou de hemodiálise. Outros órgãos. O mesmo não ocorre com pacientes que precisam de coração, fígado ou pulmão, por exemplo, porque em determinado estágio eles acabam não tendo alternativa de tratamento a não ser o transplante. Daí o fato de a lista de espera por doação de rins ser bastante superior à dos demais órgãos em todo o país. “A fila do rim tem a ver com a identidade imunológica: quanto maior a semelhança (com o doador), mais o receptor ganha pontos. Mas há uma parte dos pacientes que nunca vai receber transplante porque tem sistema imunológico muito diferente”, diz o nefrologista Estevam Viotti, do Hospital Felício Rocho. “Infelizmente, o transplante é quase Mega Sena”. Diretor da Central Estadual de Notificação e Captação de Órgãos (MG Transplantes), Charles Simão Filho explica que, após a inscrição do paciente na fila de espera por um rim, ele aguarda pelo órgão mais de dois anos, enquanto para coração e fígado a espera é em torno de seis meses. O diretor reconhece que a fila é de certa forma “cruel” com os pacientes, mas ressalta que qualquer infecção, por exemplo, já é causa para o paciente ficar inativo na fila.

Desafios para a captação Tempo. A doação de órgãos no país varia bastante de uma época para outra, segundo especialistas. No início do ano, a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos informou que, devido ao fato de o ano ser atípico – com Copa do Mundo e eleições –, o esforço dos envolvidos nos processos de captação de órgãos deveria ser redobrado. No entanto, o nefrologista Estevam Viotti pondera que o número de doações está estagnado. Preconceito. Segundo ele, um dos entraves é a falta de entendimento entre os envolvidos nas abordagens realizadas quando um paciente é diagnosticado com morte encefálica. “A própria ação dos profissionais do tratamento, que convocam a equipe de captação para ver se o paciente tem condição de se tornar doador, já é vista de forma preconceituosa pela família. Isso é estressante para todos e põe todo o sistema a perder”, avalia.

2014 Meta. Segundo o MG Transplantes, Minas está no caminho certo para alcançar, neste ano, a meta de 13,5 doadores de órgãos por milhão de pessoas. No ano passado, o índice foi de 11,6.

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