CBF, a arcaica dona do futebol

Privada e autônoma, entidade sustenta “coronéis” e faz o que quer com a paixão nacional

iG Minas Gerais | Thiago Nogueira |

Presidentes. Marco Polo del Nero assume, no ano que vem, o cargo hoje ocupado por José Maria Marin, há anos nos corredores da CBF
WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO - 16.4.2014
Presidentes. Marco Polo del Nero assume, no ano que vem, o cargo hoje ocupado por José Maria Marin, há anos nos corredores da CBF

Uma associação privada, que manda e desmanda em um dos maiores bens do brasileiro, o futebol. Erguida sobre o talento do país da bola e amparada por cinco conquistas mundiais, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) – com origens na centenária Federação Brasileira de Sports (FBS, de 1914) – carrega décadas e décadas de autoritarismo, conchavos, artimanhas e trapalhadas.

São dirigentes que se perpetuam anos no poder e que sempre estão envolvidos em escândalos. São gestores que privilegiam o interesse alheio e, vez ou outra, aprovam fórmulas mirabolantes de campeonatos. São diretores de uma entidade que tem a preciosidade de uma seleção brasileira em mãos mas que, mesmo assim, agem com amadorismo. “A CBF é uma corporação mercantil cuja única finalidade é ganhar dinheiro com os jogos da seleção. Sua função esportiva é mínima. Nunca exerceu um papel pró-ativo na organização do futebol, nem empresarialmente”, analisou o economista Humberto Miranda, professor da Universidade de Campinas (Unicamp). Depois do vexame brasileiro na Copa – goleada de 7 a 1 para a Alemanha, na semifinal, e derrota de 3 a 0 para a Holanda, na disputa do terceiro lugar –, todos pensaram: “Ah, agora, tudo vai mudar!”, disse (ou, ao menos, pensou) o torcedor. Mas o retorno de Dunga para o comando técnico e a escolha de Gilmar Rinaldi, ex-empresário de jogadores, para coordenador de seleções – mesmo não sendo diretamente ligados a questões administrativas – parece manter o futebol verde-amarelo em looping. “Precisamos buscar conhecimento”, disse Gilmar, numa clara mostra de que a entidade não tem planos de mudança. Poder. “Administrar, dirigir, controlar, fomentar, difundir, incentivar, melhorar, regulamentar e fiscalizar, constantemente e de forma única e exclusiva, a prática de futebol não profissional e profissional, em todo o território nacional”. Esses são os fins básicos da CBF, segundo o Artigo 5º de seu estatuto. Embora não esteja na lista de seus ideais, os conceitos “dominar”, “ascender”, “enriquecer” e “imperar” poderiam muito bem fazer parte de suas atribuições. Se em suas seis primeiras décadas a entidade teve 13 presidentes, a partir do primeiro título mundial do Brasil, em 1958, a CBF passou a ser conduzida por dirigentes que emendaram uma reeleição após a outra. João Havelange presidiu a entidade por 17 anos, e seu genro, Ricardo Teixeira, por outros 23. O último, aliás, responde a uma avalanche de denúncias – relacionada a fraudes e corrupção – e só deixou o posto ao alegar problemas de saúde. José Maria Marin, que assumiu a presidência em 2012 por ser o mais velho entre os vices, vai voltar ao posto secundário quando Marco Polo del Nero, eleito em abril deste ano, assumir o cargo ano que vem. Costuma sair tudo do mesmo grupinho. Fernando Sarney, filho do senador José Sarney, está por lá desde 1998. Esperteza. “As eleições, que ocorrem de quatro em quatro anos – inicialmente previstas para outubro deste ano – foram antecipadas, estrategicamente, para o mês de abril, a fim de blindar a CBF contra qualquer mudança em caso de um eventual fracasso da seleção brasileira no Mundial”, denunciou o Bom Senso FC, o movimento de jogadores, criado em 2013, que cobra melhorias no futebol.

Muita tarefa a ser feita A CBF se divide na função de conduzir a seleção com a organização de competições. Com direito a votos, as federações e clubes são seus sustentáculos. A CBF também preocupa-se com questões de arbitragem e sustenta o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), apesar de ser um órgão independente. 

As contradições estatutárias Cláusulas. Reformado em 2006, o estatuto da CBF possui artigos que, simplesmente, não são colocados em prática. Conluios. O Artigo 1º, parágrafo 7º, diz que a entidade não terá atividades político-partidárias nem religiosas. Ora, a quantidade de presentes, doações para políticos e a própria participação da CBF em decisões da Copa provam o contrário. Dirigentes. Pessoas com pendências na Justiça, na prestação de contas ou com inadimplências previdenciárias ou trabalhistas não podem ocupar cargos na CBF, segundo o Artigo 16, parágrafo 2º do estatuto. Se fosse cumprido, Ricardo Teixeira nunca teria ficado tanto tento no posto, isso, citando apenas um exemplo. Culpabilidade. “Os membros dos poderes e órgão da CBF não respondem pessoalmente pelas obrigações contraídas em nome dela”, diz o artigo 21. Ou seja, pode “roubar” à vontade, que a culpa é da entidade, não do dirigente. Eleições. O Artigo 23, parágrafo 5º estabelece que o pedido de registro das chapas deve ser apreciado pelo presidente. Assim, o dirigente-mor sabe quais serão seus possíveis adversários e, se preciso, agir nos bastidores. Auditores. O Artigo 70, parágrafo 1°, dá poderes ao presidente para nomear os membros do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). Adversários, certamente, não terão vez. O Artigo 72 ainda determina que os custos do tribunal sejam pagos pela CBF.

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