A ascensão pela fábula teatral

A virada estaria, então, no tingir do cotidiano com tons surreais, que o tornavam mais poético e expressivo

iG Minas Gerais |

Qual foi o momento de maior epifania na trajetória do Espanca!? “Vou chover no molhado: a estreia da cena curta (que deu origem ao espetáculo ‘Por Elise’)”, diz Grace Passô. Quando vocês sentiram que o teatro que faziam realmente comunicava? “Na estreia da cena curta”, responde Marcelo Castro. É unânime.  

“Aconteceu uma coisa que é muito rara: sentir a comoção das pessoas presentes antes mesmo de a cena acabar”, recorda o ator. “Vi muita gente chorando na plateia. E a gente estava tão abismado de ter feito aquilo que comecei a pular”, lembra Grace.

“Delicada e sincera, ‘Por Elise’ parece feita para cada espectador”, escreveria Sérgio Sálvia na “Folha de S. Paulo” em outubro de 2005. Naquele momento em que o grupo se formava e se projetava nacionalmente, todos eram muito jovens. “A experiência no Espanca! é parte da minha constituição como adulto. Todos nós estávamos num momento muito intuitivo, era o primeiro texto da Grace. Depois, fomos amadurecendo essas ideias”, diz Gustavo Bones, que contava 19 anos.

Marcelo Castro tinha 22, ainda era estudantes de teatro na UFMG e havia saído do grupo Armatrux. “Eu já tinha visto um espetáculo com a Grace e o Gustavo atuando (na Cia. Clara, dirigida por Anderson Aníbal) e era por ali que queria ir, uma pesquisa de linguagem específica”, lembra Castro.

“O Espanca! foi uma reunião de artistas em momentos muito potentes de todos eles, desde o início”, avalia Grace. “Sempre preocupados em traçar um diálogo lúcido com a produção da cidade e com discussões muito ideológicas sobre o teatro”, diz a ex-integrante.

Outro já fora do grupo, o ator Paulo de Azevedo destaca que eles eram um coletivo de criadores em que todos contribuíam para o discurso e ao propor a cena. “Éramos apaixonados, trabalhamos intensamente e acreditávamos em um projeto comum”, diz Azevedo.

A distinção em relação à Cia. Clara, segundo a crítica e pesquisadora Julia Guimarães, veio do tratamento dramatúrgico, “especialmente dos personagens”. “Se nos primeiros espetáculos da Cia. Clara a ideia muitas vezes era transpor diálogos que aconteciam entre o diretor e o dramaturgo para a cena, ‘Por Elise’ já trazia uma camada de desvio nessas transposições”, diz Julia.

A virada estaria, então, no tingir do cotidiano com tons surreais, que o tornavam mais poético e expressivo. “Sinto que as metáforas e as formas surreais me ajudam a me aproximar de uma espécie de teatralidade da linguagem”, diz Grace. Para isso, sempre foi fundamental a criação de uma fábula poética, como a família insone cujo pai desapareceu (“Amores Surdos”), o congresso de línguas inventadas (“Congresso Internacional do Medo”) ou a festa no futuro entre amigos que falam ao vazio (“Marcha para Zeturo”).

O crítico Valmir Santos observa que esse tipo de dramaturgia sob o signo da poesia não é novidade desde autores como Qorpo-Santo, no século XIX. “Mas a amarração de texto, cena e corpo performativos no Espanca! é que são elas”, diz.

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