Germinadores da cena mineira

Integrante do Quatroloscinco, Marcos Coletta não vê uma influência estética tão localizável, mas um universo de discussão em comum

iG Minas Gerais |

Não se pode ignorar o papel incubador tanto da Cia. Clara, na qual antes atuaram Grace Passô, Gustavo Bones e Marcelo Castro, quanto do Galpão Cine Horto, onde estreou a cena curta “Por Elise”, no nascimento do Espanca!. Assim como o grupo recebeu influências dos que vieram anteriormente e criou uma poética original a partir disso, também influenciou fortemente a produção teatral mineira que veio depois.  

Gustavo Bones elege “Por Elise” como peça “germinadora” para uma geração de artistas da cidade. “Todo mundo que fez teatro em Belo Horizonte depois se posicionou, seja negando, debochando ou se inspirando”, diz o ator. Marcelo Castro também reconhece essa influência estética. “Muitos grupos mais novos falam isso para a gente”, diz. “Cada peça estabelece um ponto – e a discussão de como fazer parte dali. Quando fizemos ‘Por Elise’, construindo a teatralidade sem cenário nenhum, aí estava o ponto para quem fosse continuar depois”, diz Castro.

“O Espanca! foi – e continua – uma referência para mim e meus contemporâneos e conterrâneos”, diz Sara Pinheiro, dramaturga da Cia. do Chá. Para ela, o frescor juvenil, a elaboração conceitual e a possibilidade de escancarar que se está no teatro sem perder o envolvimento foram motivos do impacto. “Haveria relação entre o humor absurdo de Byron O’Neil e o hipopótamo de ‘Amores Surdos’? O universo delicado apresentado por Raysner de Paula teria se alimentado da poética de Grace? A metalinguagem em textos de Vinícius Souza teria surgido a partir do Espanca!?”, questiona. “Seria leviano instaurar rigidamente relações causais. As referências se misturam e se confundem”, diz.

Integrante do Quatroloscinco, Marcos Coletta não vê uma influência estética tão localizável, mas um universo de discussão em comum. “Um olhar que o Espanca! propôs e que foi ecoado e enriquecido por outros artistas. Não é uma linha reta de evolução, mas um movimento espiralar”, opina. Para ele, a grande questão está na pessoalidade ao contar uma história. “A liberdade de se poder falar das questões do agora, sabendo que tudo já foi contado, mas, mesmo assim, é possível contar, recontar, propor o seu olhar pessoal”, diz.

Texto. O Espanca! surgiu num momento de “refluxo da dramaturgia autoral”, segundo o crítico paulista Valmir Santos, quando o teatro de grupo se fortalecia e, com ele, a encenação. “’Por Elise’ chamou a atenção pela indissociabilidade entre a escrita da peça e a do espetáculo. Palavra e cena construindo poéticas como unha e carne”, analisa Santos. 

A cena mineira de então colocava mais foco nos corpos dos atores do que no texto. “O Espanca! trouxe essa ideia de dramaturgia original”, comenta Bones. E, segundo ele, renovou a fábula na produção da cidade.

Sara e Coleta acreditam que o reconhecimento nacional de Grace impulsionou novos autores. “No curso de teatro do Cefar, brincávamos de citar os textos dela”, conta a atriz. “Quando uma jovem dramaturga conquista uma importância nacional com um obra totalmente autoral, isso motiva outros a criarem, mas, principalmente, a exporem seu trabalho”, acredita Coletta.

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