A tragédia da mobilidade urbana no Brasil

iG Minas Gerais |

Arara curiosa examinando, de todos os ângulos, a planta de mobilidade urbana de uma cidade grande
Intervenção sobre imagens de caranguejo e de arara
Arara curiosa examinando, de todos os ângulos, a planta de mobilidade urbana de uma cidade grande

Millôr Fernandes declarou, certa vez, sentir-se exilado sempre que atravessava o Túnel Novo. Para quem não sabe, Túnel Novo é a via que une os bairros de Copacabana e Botafogo, no Rio de Janeiro. Nascido e criado no Méier, na zona Norte, aos 15 anos entrou para “O Jornal”, dos Diários Associados, cuja sede ficava na Gamboa, no centrão. Quando passou a ganhar o suficiente, mudou-se para Ipanema e – adeus, periferia! Na realidade, ninguém vive em BH, Rio ou São Paulo. Cada um é morador de uma parte mínima da cidade, transitando quase sempre por obrigação numa área restrita, de casa para o trabalho e para diversão. Quem mora na periferia, estica “sua cidade” para a zona Sul, quando busca lazer. Quem mora na zona Sul não precisa sair de seu espaço: tudo se concentra aí, com fartura e até com excesso. ESTRELAS Em 2000, publiquei um livro infantil, “A Cidade das Estrelas”, no qual um garoto esperto discute moradia, trabalho, riqueza, pobreza e, principalmente, locomoção. Construído como alegoria, cada pessoa dessa cidade possui uma estrela própria, que se move sobre ela e é a réplica estelar dela. Cito dois parágrafos: “Para os lados da zona Sul, ou seja, sobre os bairros ricos, as estrelas eram sempre enormes e muito brilhantes, de um brilho deslumbrante, como se uma festa permanente estivesse acontecendo lá em cima. E – mais curioso ainda – as estrelas desses bairros eram até poucas, considerando-se todas as estrelas do céu. Mesmo sendo enormes, elas ficavam bem separadas uma das outras, movendo-se à vontade e com muita facilidade sobre as pessoas que representavam, ou guiavam, ou iluminavam – sabe-se lá!” “Já sobre a zona Norte, sobre os bairros pobres da cidade, as estrelas eram sempre pequenas (com raríssimas exceções) e de brilho tão fraquinho que até parecia que iam se apagar de repente. E o que todos notavam era que, apesar de tão pequenas e pouco brilhantes, sua quantidade era enorme: ficavam quase sempre umas sobre as outras, às vezes várias delas amontoadas no mesmo pedacinho de céu.” O CEGO QUE ENXERGAVA Jorge Luis Borges, o maior escritor latino-americano (as viúvas de Machadinho e Rosa que me perdoem), costumava dizer que era um leitor, acima de tudo. Escrever não passava de consequência. Também adorava viajar, mesmo tendo ficado cego aos 50 anos. Aliás, toda a sua obra é uma longa, fantástica e labiríntica viagem. Nisso, e apenas nisso, me pareço com Borges. Leitor ávido desde os sete anos, passei dos 70 com a mesma avidez. E é assim que descubro coisas maravilhosas, que às vezes levamos décadas para intuir ou compreender. Por exemplo, o ensaio “Mobilidade urbana – tentando sair da inércia”, de Luiz Flávio Autran Monteiro Gomes, publicado na revista “Ciência hoje”, de agosto de 2014. Borges adorava fingir que transcrevia, quando na verdade criava. Quanto a mim, não finjo. Daqui para a frente é quase tudo reprodução do ensaio de Luiz Flávio. Se é tão rico e esclarecedor, por que recusar ao hipotético leitor o prazer de fascinantes revelações sociopolíticas? Vamos lá. PLANEJAR É PRECISO “A mobilidade urbana, assim conceituada, resulta de três processos, os quais implicam ações de curto, médio e longo prazos: o planejamento dos transportes (o que inclui veículos, redes viárias, infraestrutura de apoio e integração, serviços de transporte público), o planejamento urbano e regional (o uso do solo) e a gestão das áreas metropolitanas.” Se a trindade não se liga, nada feito. “Enquanto no início do século XX cerca de 10% da população brasileira vivia em áreas urbanas, ao final desse período o percentual aumentou para 50%. Estima-se que, por volta de 2030, as cidades concentrarão 90% da população nacional. As maiores cidades do país têm sido vítimas de um crescimento quase totalmente desordenado, que segue, muitas vezes, a lógica da expansão capitalista, sem um planejamento contínuo de longo prazo e sem qualquer comprometimento com a continuidade na gestão urbana”. TEM MAIS, MUITO MAIS “A construção de mais vias urbanas é, quase sempre, incompatível com a sustentabilidade – componente essencial da mobilidade urbana. Vários exemplos mostram que eliminar vias urbanas pode contribuir para melhorar a circulação das pessoas. O que se deve é dificultar a circulação do automóvel em áreas mais críticas de cada cidade, buscando ao mesmo tempo acessibilidade, fluidez, regularidade, conforto, segurança e não agressão ao mesmo ambiente”. “No Brasil, apesar do aumento – em quantidade e qualidade – dos recursos humanos graduados e pós-graduados em engenharia de transportes, planejamento urbano e regional e administração pública, notadamente nos últimos 35 anos, estamos longe de ter uma tradição no planejamento de transportes. Isso se deve, em essência, à histórica falta de comprometimento dos administradores públicos (prefeitos, governadores etc.) com a melhoria das condições de vida dos cidadãos”. SÓ MAIS UM POUQUINHO “Com isso, a gestão pública, além de sofrer descontinuidade (ou seja, cada novo governo ignora o que o anterior fez ou planejou fazer), não busca um alinhamento verdadeiro com as necessidades urbanas de longo prazo ou com os anseios das populações das cidades. Com frequência, a atuação de nossos gestores urbanos é voltada para suas reeleições ou para as de prefeitos ou governadores a quem servem”. O mais importante vem a seguir, mas meu espaço acabou. Como nunca li nada tão claro e abrangente sobre o tema, continuarei. Confesso – como certamente você também confessará – que já ouvi muita conversa sobre “mobilidade urbana”, mas não sabia exatamente o que era.

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