Criança gerada por seleção genética salva vida da irmã

Gravidez natural teria 25% de chances de o bebê, que doou medula, ter a mesma doença

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

Sucesso.
 Jênyce, 37, e as filhas Maria Vitoria, 7, e Maria Clara, 2, que se submeteram à técnica criada por Ciro Martinhago
Alexandre Schneider / Divulgacao
Sucesso. Jênyce, 37, e as filhas Maria Vitoria, 7, e Maria Clara, 2, que se submeteram à técnica criada por Ciro Martinhago

Para a biomédica Jênyce Carla Reginato, 37, o marido advogado Eduardo Matias, 38, e a filha Maria Vitória, 7 anos, a esperança tem um nome: Maria Clara. A segunda filha do casal, de 2 anos, foi gerada usando as mais modernas técnicas de seleção de embriões compatíveis para um transplante de medula óssea para curar a irmã mais velha, Maria Vitória, portadora de talassemia major – doença hereditária do sangue que afeta a capacidade de produção de hemoglobina.

A comemoração da cura da filha mais velha, celebrada pela família em março deste ano, quando o transplante completou um ano, só foi possível com o auxílio do médico geneticista Ciro Martinhago, de São Paulo. Ele é um dos responsáveis pelo desenvolvimento e aprimoramento da técnica no Brasil. “Quando conversava com os casais e via a recorrência de alguma doença, eu só passava a eles o risco de a criança também ter o problema. Meu sonho era desenvolver algo para prevenir que a doença aconteça de novo na família e que o filho a tenha, e isso resultou na técnica que hoje chamo de genética preventiva”, explica Martinhago.

No caso de Jênyce, portadora do gene da talassemia, e do marido, que também tinha os traços da doença em seu DNA, uma gravidez pelo método natural resultaria em uma chance de 25% de Maria Vitória nascer com a forma grave da doença. “A gravidez foi normal, mas, com cinco meses de vida, ela fez a primeira transfusão de sangue por causa do problema”, lembra a mãe. Na busca de uma solução, Jênyce conta que a maioria dos médicos que procurou desconhecia a novidade e dizia que a única chance de cura era por meio do transplante de medula, mas que os riscos não compensariam.

Sem desistir, o casal foi o primeiro a aceitar gerar um bebê pela técnica criada por Martinhago em 2009, que utiliza o método compatível com irmãos já nascidos e afetados por doença genética, conhecido como Sistema Antígeno Leucocitário Humano (Human Leucocyte Antigens – HLA). “Todos temos dois códigos de barras. Quando precisamos de um transplante, a primeira coisa que se verifica na população mundial é se tem mais alguém que tenha os códigos iguais. A probabilidade de HLA parecido é de um em 150 mil pessoas (0,0006%), mas, em irmãos, essa chance aumenta para 25%. Além disso, as chances de rejeição entre irmãos são quase nulas”, diz.

Segundo o geneticista, apesar da pouca procura inicial, ele já trabalhou em 45 casos no Brasil. Martinhago explica que a seleção de embriões para a gestação de um bebê saudável

é indicada para diferentes doenças genéticas, que afetam um fragmento de um gene (talassemia e anemia falciforme), um cromossomo completo (síndrome de Down) e doenças ligadas ao sexo (X-frágil que atinge um em cada 1.200 meninos), entre outras.

Procedimento. O geneticista explica que o aconselhamento genético é o primeiro passo para os casais que não desejam transmitir os genes “doentes” para os filhos. Em seguida, com a coleta da saliva do casal é feito um teste para identificar o DNA dos pais. “A probabilidade de assertiva em casos como esse é acima de 97%”, diz.

Após a coleta do óvulo da mãe e do espermatozoide do pai, no terceiro dia do embrião concebido artificialmente pela fertilização in vitro é retirada uma das cerca de oito células dele. “Até o 5°dia eu passo o resultado dos embriões normais e compatíveis, e somente esses são transferidos para o útero da mãe”, explica.

No caso de Jênyce, assim que Maria Clara nasceu, as células-tronco de seu cordão umbilical foram colhidas e congeladas. Após um ano, foram implantadas na irmã.

“Antes de receber o transplante, Maria Vitória foi submetida a uma forte quimioterapia por sete dias. Em seguida foi feita a transferência das células saudáveis da irmã e a ‘pega’ da medula se deu no 19° dia após o transplante. Hoje vejo a quantidade de pessoas que se beneficiaram, estão se beneficiando e vão se beneficiar”, comemora a mãe.

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