Memória de cálculo do projeto do Guararapes tem 13 erros

Principal problema foi a falta de 85% de aço na armadura do bloco de sustentação que se rompeu

iG Minas Gerais | Joana Suarez |

Tragédia. O viaduto Batalha dos Guararapes desabou no dia 3 de julho, matando duas pessoas
Lincon Zarbietti / O Tempo
Tragédia. O viaduto Batalha dos Guararapes desabou no dia 3 de julho, matando duas pessoas

A memória de cálculo do projeto do viaduto Batalha dos Guararapes, na avenida Pedro I, tem 13 erros. Conforme a informação obtida pela reportagem, o documento que detalha os cálculos efetuados para se chegar à concepção da estrutura tinha falhas graves, entre elas a previsão de muito menos aço que o necessário. Mesmo assim, ao menos dez pessoas que assinaram os desenhos do elevado e estavam à frente da obra não viram o problema, considerado grosseiro e primário por especialistas. Serão tratados como tecnicamente culpados pelo desabamento do viaduto, que matou duas pessoas em 3 de julho, os responsáveis pelo projeto, pela revisão e pela execução. O laudo da perícia da Polícia Civil será entregue na próxima quarta-feira, dois meses após a tragédia. O trabalho é demorado porque é preciso, além de identificar os erros, apontar quem deve responder pelo crime. Nas 87 folhas de desenhos do projeto constam oito assinaturas. Duas delas da mesma pessoa, que faz a verificação e a supervisão do próprio trabalho. Nenhum deles viu o erro no bloco. Outros profissionais que, segundo especialistas, certamente veriam a falta de aço durante a execução seriam o armador ou mestre de obras e o engenheiro que acompanhava e fiscalizava o trabalho. Pressa. Engenheiros renomados que participaram nessa quinta de uma palestra na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sobre o viaduto se mostraram impressionados com os erros de projeto e execução, que, segundo eles, provaram que as obras são feitas a toque de caixa. Menos de 15 dias após a queda da estrutura, muitos deles chegaram à conclusão de que foi dimensionado 85% a menos do aço necessário no bloco de sustentação, que fica abaixo do pilar e precisaria da ferragem para transferir a carga do elevado para as estacas na fundação. O engenheiro Sebastião Salvador, professor de concreto protendido e pontes da UFMG, que ministrou a palestra, conta que no dia 16 de julho ele identificou o erro no projeto e comunicou à Prefeitura de Belo Horizonte. Uma falha que ninguém conseguia entender, principalmente porque o engenheiro que projetou a estrutura é experiente, e o erro é primário. “Você não precisa fazer uma conta muito complicada para saber que a armadura estava errada, tinha da ordem de 15% a 20% do que era necessário de aço. Isso pode ter ocorrido na hora de passar o cálculo para o desenho”, afirmou Salvador. Ele acredita que o número de acidentes estruturais está aumentando e existe um problema de verificação de projetos. Geralmente, o projeto é feito por uma equipe de projetistas e desenhistas, e cada um faz uma parte da estrutura, mas um engenheiro assina pela concepção, e o responsável técnico da empresa responde pelo projeto como um todo . De acordo com especialistas, os projetos geralmente não são bem pagos, e, por isso, recém-formados fazem parte das equipes. A Consol recebeu R$ 3,5 milhões para elaborar os projetos básicos e executivos da avenida Pedro I, com dez viadutos. Se for dividido, o Guararapes deve ter saído em torno de R$ 350 mil. O que significaria que cada um dos 87 desenhos sairia em torno de R$ 4.000 – valor que remunera a equipe e a empresa. Nessa mesma lógica, o desenhista ganharia R$ 600.

Prefeitura Silêncio. O secretário de Obras, José Lauro Terror, participou da palestra na UFMG nessa quinta, mas não quis dar entrevista. A prefeitura informou que aguarda o laudo da polícia para se pronunciar. 

Consol reclama de execução A Consol, responsável pelo projeto, se pronunciou nesta sexta. Conforme O TEMPO havia adiantado, a empresa alega que a execução da obra não seguiu o projeto. Ela contesta o laudo da Cowan sobre o erro de cálculo e destaca que houve a retirada forçada do escoramento da estrutura. “Cumpre destacar que medidas de simples precauções e recomendadas pela boa técnica deveriam ter sido observadas”, disse a Consol. A empresa cita ainda diversos erros de construção, entre eles as aberturas do tabuleiro, teoria já mostrada pela reportagem.

O TEMPO mostrou com exclusividade 26.8. O laudo oficial da queda deve indicar que houve erro de cálculo no bloco de sustentação e apontar falhas na construção. A prefeitura não apresentou a Certificação de Qualidade do Projeto (CQP), verificação exigida pela ABNT. 27.8. Sem a CQP, a responsabilidade deverá recair sobre os servidores que assinaram o laudo de fiscalização.  28.8. A preocupação quanto à falta de revisão de projetos se estende às demais obras da capital. Ao menos dez viadutos da Pedro I não foram checados. 29.8. O descumprimento das normas da ABNT vai constar no laudo da polícia. 

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