Sem punição, atos se repetem

Cruzeirense Tinga, que sofreu com o racismo, acredita que há falhas na educação brasileira

iG Minas Gerais | Josias Pereira |

Solidário. Tinga passou pela mesma situação recentemente e lamenta ato contra o colega Aranha
Alex de Jesus - 28.8.2014
Solidário. Tinga passou pela mesma situação recentemente e lamenta ato contra o colega Aranha

Campanhas são feitas, faixas são afixadas nos estádios, capitães leem discursos, dirigentes demonstram repúdio, as redes sociais se enfurecem, mas o mal que já deveria ter sido extirpado da sociedade há séculos não se vai. De tempos em tempos, o racismo volta à pauta do mundo do futebol, trazendo consigo uma das faces mais criminosas da sociedade, e colocando em discussão a dita igualdade no país mais miscigenado do planeta – o Brasil.

A bola da vez é Aranha, goleiro do Santos, chamado de “macaco” por torcedores gremistas durante a primeira partida das oitavas de final da Copa do Brasil, na última quinta-feira. “As pessoas precisam entender que o que acontece em um campo de futebol não é uma brincadeira. Muitos entram ali e se transformam, acham que seus atos são normais”, afirma Tinga, jogador do Cruzeiro e, recentemente, alvo de atos racistas na Libertadores.

“A gente fica muito triste com a atitude de alguns, ditos torcedores, uma minoria. Mas a gente sabe que aquilo é só um reflexo de um todo, do cotidiano, da educação que é falha. São fatos preocupantes. E isso não vai mudar por agora. É preciso muito mais do que punição. É preciso mudar os conceitos”, completa.

Reincidência. O fato que repercutiu negativamente em todo o país aconteceu no Rio Grande do Sul, Estado que vem acumulando episódios de racismo. Basta lembrar o caso do zagueiro Paulão, ex-Cruzeiro, atacado verbalmente por torcedores gremistas durante um Grenal, além do ex-árbitro Márcio Chagas.

Especialistas já veem os acontecimentos recorrentes com preocupação. “As autoridades do Rio Grande do Sul não podem tratar isso como um caso isolado. O Estado possui forte histórico de discriminação, muito por conta de sua colonização europeia, o que não pode ser ignorado. Fatos como este são muito mal trabalhados pelas autoridades gaúchas. O que aconteceu deveria servir como exemplo para a sociedade do que não deve ser feito”, avalia Maurício Santoro, sociólogo e assessor da Anistia Internacional.

Anormal. “Pessoas que repetem e promovem atos de racismo são frutos do mundo de intolerância. Temos que ser honestos: vivemos em um ambiente social que estimula o racismo. Tudo o que aconteceu durante o jogo faz parte da anomalia social que criamos e sustentamos”, destaca Manoel Soares, coordenador da Central Única das Favelas (Cufa), do Rio Grande do Sul, e um dos colaboradores do projeto “Chutando o Preconceito”.

Recentes casos de racismo no mundo do futebol Tinga. No duelo com o Real Garcilaso, em Huncayo, no Peru, pela Copa Libertadores deste ano, o cruzeirense Tinga foi hostilizado por torcedores locais que emitiram sons de macaco a cada toque do jogador na bola. Várias autoridades demonstraram repúdio, entre elas, a presidente Dilma Rousseff e do presidente da Fifa, Joseph Blatter. O clube peruano foi punido apenas com uma multa US$ 12 mil (o equivalente a R$ 28 mil). Daniel Alves. Contra o Villareal, em partida válida pela última edição do Campeonato Espanhol, Daniel Alves se preparava para a cobrança de um escanteio quando uma banana foi atirada por um torcedor em sua direção. Para a surpresa de todos, o ato de racismo foi ignorado pelo jogador, que comeu a fruta e deu sequência na jogada. O torcedor responsável pela atitude foi banido para sempre do estádio El Madrigal. Márcio Santos. O árbitro apitou o jogo entre Esportivo e Veranópolis, em Bento Gonçalves, e encontrou seu carro danificado e com bananas no capô e no cano de descarga após a partida. “Um grupo de torcedores se manifestou de forma racista desde o início, com gritos de ‘macaco’, ‘teu lugar é na selva’, ‘volta para o circo’”, disse. Dez anos antes, ele já havia sido alvo de atos racistas em um estádio gaúcho.

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