O pêssego sortudo

iG Minas Gerais |

Revista “Lucky Peach” é editada pelo chef coreano David Chang
Renato Quintino
Revista “Lucky Peach” é editada pelo chef coreano David Chang

A safra de bons filmes e novelas de TV abordando o dia a dia de chefs de cozinha atesta, mais uma vez, o interesse que a profissão desperta atualmente. O belga “Brasseire Romantique” – “Bistrô Romântico”, em português, que deve entrar em cartaz nesta semana – e o norte-americano “Chef” são dois exemplos. O “Bistrô Romântico” é interessante pelos ótimos atores e pelo fato de todo o filme se passar num único jantar, no Dia dos Namorados, entre a cozinha e o salão do restaurante.

Nada de cenas na praia, clímax musical, explosões, capotamentos e perseguições alucinadas. Numa linha do cinema europeu prova-se que um bom filme pode ser feito com pouco dinheiro e num único cenário, se o elenco e a direção forem bons.

Por sua vez, “Chef” (escrito, dirigido e interpretado por Jean Favreau) tem as participações de atores consagrados, como Dustin Hoffmann, Robert Donwey Jr., Scarlett Johansson e John Leguizamo, sendo boa diversão, abordando questões cotidianas na vida de chefs profissionais, como o conflito entre a criatividade e o conservadorismo do dono do restaurante, o impacto das redes sociais na avaliação de seu trabalho e a vida pessoal sacrificada e quase sem horários livres.

Cedendo às pressões do patrão, o chef não inova, gerando uma resenha negativa de um crítico ao qual ele responde pelo Twitter. De conflitos em conflitos, a trama evolui para o recomeço de sua carreira num trailer com comida de rua (tendência, inclusive, hoje muito forte). E dos muitos detalhes que chamam atenção na produção e na direção de arte do filme está a onipresença da revista “Lucky Peach” (“Pêssego Sortudo”) na cozinha de sua casa, no restaurante ou em seu trailer.

“Lucky Peach” é editada pelo chef coreano radicado em Nova York David Chang, dono do restaurante Momofucku (“Pêssego Sortudo”, em japonês). Chang é hoje referência internacional depois de anos enfrentando portas batidas na cara e ouvindo “nãos” diversos (caminho, na verdade, de todo mundo que trabalha). O começo do sucesso do pequeno restaurante na Union Square foi insólito quando Chang e seu sócio decidiram convidar garotas de programa da região para jantar na casa. Foi o estopim final que começou a trazer movimento para um dos restaurantes mais quentes do mundo.

Chang fez algumas vezes a ponte Nova York-Tóquio, queria fazer Ramén, mas acabava em noodles bares. Trabalhou e abandonou a cozinha do café Boulud, em Nova York, tendo a sorte – como ele mesmo diz – de o então chef executivo Andrew Carmellini – conhecido como o rei de Downtown, dono dos ótimos The Dutch, Lafayette e Locanda Verde – não tê-lo colocado na lista negra.

O Momofucku, em Nova York, é uma lenda, o interesse pela cozinha asiática num noodle bar – macarrão com acompanhamentos diversos – gerou centenas de cópias. Chang abriu outras três casas e por fim criou e editou a “Lucky Peach”. A revista foge da linha da alta gastronomia. Aborda de tudo em edições temáticas. Seu perfil e projeto gráfico lembram a “The Face” inglesa, cult e célebre nos anos 80 e 90, em oposição às sofisticadas “Tatle”, “W”, “Vogue” e “Vanity Fair”.

Como uma boa opção às politicamente corretas e chiques “Bon Appetit” e “Food and Wine”, a “Lucky Peach” – disponível no site da Amazon – aborda comida benfeita de todo o mundo, de restaurantes e feiras à comida de rua, numa democracia gastronômica que é a cara da segunda década do século XXI.

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