Em entrevista, Marina Silva destoa de propostas de Campos

Para analistas, tanto Marina Silva (PSB) quanto Eduardo Campos pecaram pela falta de uma plataforma clara na campanha

iG Minas Gerais | LARISSA VELOSO |

A morte do candidato à presidência, Eduardo Campos (PSB), gerou o estranho fenômeno de um partido com dois candidatos à presidência no mesmo pleito. O fato de a tragédia do ex-governador de Pernambuco ter acontecido um dia depois de sua entrevista na bancada do Jornal Nacional colocou a rede Globo na desconfortável posição de entrevistar mais um candidato à presidência do PSB.

Durante entrevista na última quarta-feira (27), a candidata à presidência Marina Silva (PSB) não escapou de ser colocada contra a parede na bancada do telejornal. Ela rebateu questões sobre o suposto uso de empresas de fachada na compra do avião usado por Campos na campanha e sobre divergências com o candidato a vice, Beto Albuquerque (PSB).

Mas ao contrário do primeiro candidato, que apareceu na televisão enquanto estava em terceiro nas pesquisas de intenção de voto, Marina participou do programa numa posição mais confortável. "Ela foi entrevistada no contexto de alguém que se saiu bem no debate do dia anterior e que está em alta nas pesquisas. Isso se refletiu numa postura mais firme dela em relação às perguntas", avalia o cientista político da PUC Minas, Moisés Augusto Gonçalves.

De fato, a candidata contestou várias informações apresentadas por William Bonner e Patrícia Poeta. Mas apesar de ter se beneficiado do contexto, Marina acabou sendo mais vaga que Campos. Seu antecessor chegou a marcar posições sobre política econômica, passe livre no transporte público para estudantes e reforma constitucional, mas a candidata mostrou apenas sua posição em relação ao plantio de transgênicos.

A defesa de conceitos, e não de propostas, no entanto, é uma marca da candidatura do PSB desde o início, já que a o partido quer se apresentar como uma alternativa tanto ao PT quanto ao PSDB, afirmam especialistas. "O que faltou no discurso deles em ambas as entrevistas foi um projeto de país, de uma plataforma política", avalia Gonçalves. Ao não apresentar propostas claras, ela tenta agradar a ex-petistas e ex-tucanos.

De acordo com os especialistas, Marina tem uma base ainda mais diversificada do que Campos. "O Eduardo Campos não tinha essa base tão diversificada em termos de valores. Como ela vai conciliar uma agenda conservadora, para o eleitor evangélico, por exemplo, e ao mesmo tempo manter uma agenda liberal com os jovens?", questiona o cientista político da UFJF, Paulo Roberto Leal.

Por isso, quando confrontada sobre sua posição em relação à autorização do plantio de soja transgênica, medida defendida por seu vice, Beto Albuquerque, Marina preferiu, novamente, o meio-termo. A candidata disse que, quando foi ministra do Meio Ambiente, defendia o “modelo de coexistência” entre áreas com e sem transgênicos. Para os especialistas, mesmo o gesto de ficar em cima do muro demarca uma posição que pode agregar ou perder votos. “Há uma contradição. Parte dos eleitores votaria na Marina porque ela combate o agronegócio. E parte vai votar nela porque ela disse que não vai combater", explica Leal.,

Entre Dilma e Aécio, carisma de Marina levou a melhor

Marina Silva e Eduardo Campos não foram os únicos que tiveram que responder a perguntas espinhosas no Jornal Nacional.Aécio Neves (PSDB) teve que responder a questões sobre a construção de um aeroporto do governo de Minas Gerais no terreno de seu tio-avô e Dilma Rousseff (PT) teve que justificar os números da economia.

Na opinião dos cientistas políticos, o candidato do PSDB foi o que acabou tendo a postura mais defensiva. "Ele adotou a linha do 'vamos conversar', do 'estou me apresentando', mas essa apresentação ficou maculada com a questão do aeroporto. Ele se apertou", avalia Moisés Augusto Gonçalves. Já Dilma adotou a já velha estratégia de citar os números do seu governo. Na questão da prisão de José Dirceu e José Genoino no caso do mensalão, ela optou por se distanciar, afirmando repetidas vezes que, como presidente, não comentava decisões do Supremo Tribunal Federal (STF).

Na comparação dos três presidenciáveis, no entanto, Gonçalves avalia que Marina levou a melhor, por ter mais carisma. “Ela se sobressaiu. A disputa estava entre perfis tecnocráticos, e ela coloca esse elemento da emoção e do carisma, já que não tem tanto o lado técnico”, argumenta o professor.

No fim, todos os três candidatos tentaram direcionar a entrevista para a sua zona de conforto, sejam os dados nacionais, a apresentação de uma biografia ou a ideia de uma terceira via.

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