Racismo recreativo

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Até pensei em colorir de ficção a história de Dóris, trazer para o ambiente que costumo criar neste espaço (que não ouso chamar de literatura, mas que também não carrega a crueza do noticiário) a perversidade que ela experimentou na última semana. Mas apesar de ter me revoltado, me solidarizado, me envergonhado, me horrorizado, a minha imaginação não dá conta de conhecer de verdade o que essa menina passou. Só é possível ter a real dimensão do racismo quem sente sua brutalidade na pele. Quem é ela? Será que já tem 17 anos? Vai fazer Enem em outubro? Já escolheu a profissão que vai ocupá-la no maior pedaço da vida? Está planejando como vai ser a vida longe de Muriaé depois que entrar para a faculdade? E o menino da foto? Namoradinho recente? Será que é colega de sala? Como foi que se apaixonaram? Podem se encontrar a qualquer dia, a qualquer hora? Estão experimentando o primeiro amor? Ou é só um peguete? A única coisa que é possível adivinhar é que Dóris tem muitas particularidades que a fazem única, mas que é também uma adolescente como toda a multidão deles, que tira selfies ligeiros e descomprometidos com o par para depois exibir o afeto nas redes sociais. Foi o que Dóris fez no fim de semana. Ganhou um abraço do namorado, fez a foto pelo celular, postou no Facebook e viu sua atitude tão banal expor a violência que trespassa a sociedade brasileira há séculos. O motivo? Dóris é negra. O namorado, não. Os comentários que vieram com a postagem trazem absurdos como “Parece até que estão na senzala”, “Eu acho que você roubou o branco pra tirar foto”, “Onde comprou essa escrava?”, “Me vende ela”... Eu sei, não devia acontecer mais, mas aconteceu. É que no Brasil, desenvolvemos essa ideia de um racismo recreativo. É só uma piada. É só brincadeira. É até engraçado. As pessoas não veem o racismo ou o sexismo ou a homofobia como uma ofensa, como um atentado à dignidade das pessoas. No fundo, acreditam (e disseminam com seu zombateio maroto) que nem todos os seres humanos têm o mesmo direito à felicidade. Dóris não é um caso isolado. A questão da raça somada ao machismo resulta num mundo em que meninas com a pele negra tenham de enfrentar muito mais obstáculos. É o que vive a Tati, mulher linda e que tem dado passos sólidos na carreira que escolheu, mas que já escutou que estava no lugar errado por causa da sua cor. Não dá para sossegar enquanto Dóris, Tati, Dani, Mariana não puderem ser o que quiserem na vida, namorar quem bem entenderem, sem tanto sofrimento.

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