Quem é você na rede?

iG Minas Gerais |

O universo paralelo está aí, ao alcance dos dedos. Basta clicar ou tocar, e pronto. Verdades e mentiras se misturam a ponto de se confundirem. Você é você de fato ou é aquilo que gostaria de ser? Ou será apenas o retrato do que os outros desejam ou esperam? Um pouco de tudo. É assim quando se está na rede social. O lugar do desabafo, das explosões de alegria, dos discursos ácidos ou de demonstrações efusivas de carinho. Uma experiência que, todos os dias, pode ensinar muito ou absolutamente nada. Eu, por exemplo, aprendi por lá sobre pessoas e as histórias que procuram construir. Algumas, desconstruir. E outras tantas, destruir. Tenho um “amigo” que se dedica, e com afinco, a agredir verbalmente os outros. Muitas vezes, implica até com ele mesmo. Quer ser o crítico, o ácido, o comentarista maldoso. Comenta tudo o que ocorre no Brasil e no mundo e também “ataca” os posts alheios sem qualquer pudor. Está sempre enfiado em algum bate-boca, daqueles que se arrastam por horas. E acha lindo. Outro dia o revi pessoalmente. Para minha surpresa, o “ele real” era exatamente a pessoa que conheci: calmo, simpático e extremamente carinhoso. Até um pouco tímido. Como não resisto, falei: “Você é um chato virtual, uma canseira”. Ele sorriu. Afirmou ter adorado o comentário e respondeu: “Esse é meu objetivo na rede, é onde me solto”. A resposta não me surpreendeu nem um pouco. Apenas reafirmou o que penso: você pode ser quem quiser na internet. Ainda assim, pode ser mal interpretado ou estereotipado. Apesar de ser contra estereótipos, acho muito difícil não criá-los. A patrulha ideológica tomou conta. Fato que eu realmente lamento. Gosto de quem pensa diferente, embora nem sempre esteja disposta ou com paciência para o debate. Não dá para ser politicamente correto o tempo inteiro. Mas também não dá para viver só no egocentrismo... Eu malhando, eu correndo, eu comendo, eu no espelho e euzinho comigo mesmo. Então, deixem que espalhem o amor. De preferência com mensagens positivas em memes fofos. Tornar o dia dos colegas mais leve com frases marcantes de autores famosos. Ou ainda com trechos de ilustres desconhecidos, mas creditados aos famosos. O importante é o efeito produzido pela mensagem e os compartilhamentos, é claro. Tem ainda a prática: “Minha família é minha vida”. Outros preferem estar em todos os lugares cercados de amigos. Na escola, na balada, no barzinho, na praia ou no parque. Ah, esqueci: tem também o “eu viajei”. Pode ser no Brasil mesmo, mas o exterior causa mais impacto. Encontramos também o caça-notícias, o caça-vídeos interessantes ou músicas incríveis. Tão bacanas quanto aquele amigo e confidente virtual que, quando te vê no corredor, nem ao menos cumprimenta. Lendo assim, o meu ponto de vista sobre as figuras do Facebook pode parecer só irônico ou crítico. Mas não é. Foi caricatural, apenas para marcar e fazer pensar. Meu avatar no mundo virtual é do tipo comum. Posta fotos “corujando” o filho e a família, exalta os amigos, procura notícias, vídeos e músicas. Replica sempre o que gosta. Defende o time e critica o rival. Só não posta comida. Tento evitar exageros. São as escolhas, e prefiro que permaneçam democráticas. Outro dia procurei uma amiga, de quem estava com muita saudade. Soube que saiu da rede. Não aguentou. Pelo telefone, me contou não ter suportado a patrulha ideológica. Resolveu dar um tempo. Respirar o ar de fato. Volta outra hora. Já tive esse desejo. Mas ainda permaneço, tentando manter a regra básica que deveria ser premissa não apenas na internet: o respeito. E você, o que anda fazendo rede afora? A colunista está de férias. Esta coluna foi publicada em 1.12.2013

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