Selfie-service

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Tá bom, pra mim já deu! Eu gosto de internet, não sei como vivíamos antes sem ela, sou viciado em várias redes sociais, mas tente me explicar: o que está acontecendo com o mundo? Qual o problema das pessoas que fazem tudo por uma curtida? E você? Até que ponto você iria por apenas um like a mais? Fui direto ao ponto assim hoje porque a sociedade chegou ao seu limite. Causou grande comoção nacional o fato de o candidato à Presidência da República pelo PSB, Eduardo Campos, ter sofrido um acidente de avião em Santos (SP), o que resultou em sua morte e na de outras seis pessoas. Após todo o país ficar chocado com tal tragédia, passaram alguns dias, e, no enterro, em Recife (PE), milhares de pessoas se empurravam para se despedir do político. Até aí, tudo bem. Qual homem público não é enterrado de forma circense, com holofotes e flashes? Mas perceber que esse circo é montado agora não só pela imprensa, mas por cada ser humano, de forma individual e egoísta, é tão frustrante que o nojo pela nossa raça chega a ser o único e repugnante sentimento.

Sim, em pleno enterro de Eduardo Campos, uma mulher foi flagrada tirando um selfie (autorretrato em que a pessoa se enquadra ao ambiente com a câmera de um celular ou webcam para ser postado numa rede social), sorrindo, em frente ao caixão do ex-governador de Pernambuco. É claro que a foto rodou o mundo e virou meme na internet, com montagens da fulana em grandes tragédias mundiais, tamanha a excentricidade de sua atitude. Você olha a foto e não acredita na cena. Como uma pessoa tem coragem de fazer isso? Qual a real finalidade desse ato? Postar a foto? Provar que esteve lá e ainda estava feliz por isso? Gabar-se com os amigos das redes sociais que conseguiu tal proeza? Se tem algo a se notar nesse ponto é somente a total falta de respeito não só com o ser humano, mas até mesmo com o mundo ao seu redor. Essa pessoa não deveria nem ter o direito de ir e vir por não se enquadrar nas regras e boas maneiras de uma sociedade pacífica.

Em um texto de Rosana Pinheiro Machado na revista “Carta Capital”, a jornalista faz uma análise pertinente desse ato que acabou se tornando uma tremenda de uma aberração. Em um trecho, ela diz: “É preciso admitir que os selfies acompanharão o velório de qualquer figura pública na era das polimídias. Afinal, o sem-noção e os secadores são personagens clássicos de qualquer velório – a diferença é que agora eles estão munidos das tecnologias digitais. Aqui, o sem-noção pode ser o Obama no velório de Mandela, um mero desconhecido se debruçando sobre o caixão de Eduardo Campos ou mesmo a sucessora que se presta a tirar fotos com fãs”. Pode acreditar, ainda teve isso: Marina Silva tirou foto, também sorrindo, com eleitores ao lado do caixão de Campos. Algo inadmissível, triste, feio, asqueroso e indecente. São só dois exemplos porque só esses dois momentos foram captados por fotógrafos de plantão no velório e difundidos na rede. Imagine a quantidade de secadores e de sem- noção que surgiram a cada instante por lá. Pois, como a jornalista citou, o que esperar de um indivíduo sem o mínimo de respeito munido dessa arma tecnológica em suas livres mãos?

Fiz muitas perguntas, e, infelizmente, muitas delas não têm respostas. Seriam anos de terapia para interpretar a aura mundesca que não vale absolutamente nada. O que penso é que o homem está cada vez mais carente, numa necessidade estrondosa de querer fazer de sua vida um espetáculo para mostrar para a sociedade que é feliz, que é capaz, que é o cara! O selfie nada mais é que o autorretrato mais egoísta de um comportamento desregrado nas redes sociais de uma liberdade recém-conquistada. Não digo que não faço selfies, que nunca fiz ou que não farei mais. Mas tudo isso me dá um desânimo gigante misturado a uma vergonha incontrolável. Essa modinha exibicionista se resume apenas à vontade exacerbada de querer aparecer. Sempre! Seja num “bom-dia” despretensioso em que um qualquer posta deitado na cama até aquela patética sem-noção com o smartphone ao lado do caixão. O que esperar de uma geração em que a palavra mais pesquisada na internet em 2013 foi uma representação dela mesma? Um brinde à falta de noção, de respeito, e ao narcisismo fora de controle.

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